MIL E UMA NOITES DE TRINCHEIRA*. Por ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

 

 

I

 

Há três meses que estamos na trincha. Todos os seis dias saímos para ir descansar numas aldeolas a três quilómetros à retaguarda e, nesses seis dias de descanso, temos cinco horas de instrução. De noite, ou os homens voltam às trincheiras para trabalhar na reparação do sector que herdámos perfeitamente desmantelado e que é necessário reconstruir, ou um alerta da Brigada põe todo o batalhão de prevenção, em grupos pela estrada, pronto a acudir se se confirmarem suspeitas de ataque sobre a nossa frente. Já sabemos esta guerra de cor. Quando estamos na linha, todas as noites enxotamos as patrulhas que nos vêm apalpar; todas as noites passeamos pela “terra de ninguém”. Já tivemos um combate sério, o cheiro a maçã cozida do gás boche é quase o nosso perfume habitual. As sensações dos primeiros dias e das primeiras noites já estão embotadas. Afizemo-nos à lama pelo joelho, aos charcos de água barrenta, aos dogs outs, às rações, às visitas de general, aos morteiros de todo o tamanho, às pontarias dos snipers inimigos, ao “Zacarias” boche que, em cima de uma árvore, tem por missão atirar aos que se permitem passear na estradinha das Ghurkkas, ao maldito whizz-bang que nem dá tempo a dizer: “Ai Jesus!”, ao estrondear formidável dos Minnies. Perdemos o hábito dos lençóis, das louças lavadas, dos guardanapos. Comemos e bebemos, em pratos e canecas de lata, sólidos e líquidos que em canecas de lata nos vêm trazer todas as noites, ao lusco-fusco, os carros de reabastecimento. Aquela espada, que alguns sonhavam brandir em arrancadas de glória, foi substituída por um cacete nodoso em que se amparam os nossos passos sobre as passadeiras viscosas e com que se enxotam os ratos. Da minha gente só umas aves raras, dotadas de uma pertinácia extravagante, ainda têm medo. Os outros passeiam, circulam, trabalham, dormem e fumam, instalados absolutamente nesta vida sem pensar na morte, que já todos vimos bem de frente. De vez em quando conta-se um acto de valentia. “Imagine você que eu ia descendo a New Cut Alley, vem um morteiro, eu agacho-me, ele passa por cima, eu fujo para o dreno, ele rebenta, eu enfio-me numa cova, a trincheira cai, eu levanto-me, escondo-me, os estilhaços passam e cá estou.” ̶   “Bravo! Seu catita!” E o herói, vestido e calçado de lama, gotejante de todas as imundícies, ri e todos nós rimos, deste riso nervoso que temos sempre quando uma bala nos assobia a três palmos do nariz.

Este heroísmo de cócoras, que temos de praticar seis vezes ao dia, é toda a guerra de trincheira.

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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