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ANTERO DE QUENTAL – 2 – Histórias de Suicídios Famosos em Portugal – por José Brandão

(Continuação) 

De regresso a Lisboa, colaborou com José Fontana na elaboração de associações operárias e, ao mesmo tempo, dedicou-se à intervenção revolucionária escrevendo folhetos propagandísticos e artigos para a imprensa. Fundou, em 1872, a secção portuguesa da Associação Internacional dos Operários. Ainda em 1865, publica Bom Senso e Bom Gosto, carta a Castilho, que teve várias edições em Coimbra e Lisboa, e A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, em Lisboa. A este período de combate, que perdurou até cerca de 1875, esteve também ligada a organização das Conferências do Casino, ciclo da responsabilidade do grupo do Cenáculo (que incluía Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e Batalha Reis, entre outros), que Antero elevara a centro de reflexão política, social e cultural. Nas conferências, leu um dos seus textos de análise histórica mais célebres – «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares» – que corresponde aos desejos de transformação do país que animavam a sua geração. Em 1873, a morte do pai fê-lo regressar aos Açores, dotando-o de uma herança que lhe garantiu uma vida sem problemas económicos. Entretanto, atacado por uma doença estranha (identificada por alguns como psicose maníaco-depressiva), foi obrigado a moderar a sua actividade. Dirigiu ainda, com Batalha Reis, a Revista Ocidental (1875). Iniciou-se então um período de profundo pessimismo, que o levou a um sentimento da morte e da aniquilação pessoal (e universal), numa espécie de nirvana budista, como única forma de libertação face aos desespero de uma vida que via apenas como ilusão e vazio, e que os seus Sonetos Completos (reunidos em 1886) ilustram. Este período terminou por volta de 1880. É, pois, este estado pungente de dúvida e de incerteza que irá determinar a sua poesia ao longo da sua vida, independentemente de alguns estudiosos, nomeadamente contemporâneos seus, como é o caso de Oliveira Martins, pretenderem definir diferentes períodos de produção literária. Depois de ter afirmado, aquando da publicação das Odes Modernas, que «A Poesia moderna é a voz da Revolução», a sua obra poética ganha alcance em temas como a Justiça, a Fraternidade, o Amor, a Solidão, Deus, a Morte e o Nada, o que revela, à evidência, as suas verdadeiras preocupações. A par dos que defendem a estratificação da sua obra de acordo com diferentes períodos da sua vida, há também quem afirme estarmos diante de um espírito em permanente convulsão, no qual já se sente fermentar a gestação duma heteronomia não declarada, que apenas viria a ganhar corpo, tal como a conhecemos, em Fernando Pessoa. Não admira que o protagonista da célebre Questão Coimbrã, na generosidade da sua juventude e no espírito vanguardista das Odes Modernas, se dirigisse aos poetas do seu tempo, incitando-os ao combate em nome de valores como o Amor, a Fraternidade e a Justiça, que, no fundo, alimentavam o seu sonho de mudar o mundo: Tu que dormes, espírito sereno / […] / […] / Longe da luta e do fragor terreno, / / Acorda! É tempo! […] / […] / […] / Um mundo novo espera só um aceno… / / Escuta! É a grande voz das multidões! / São teus irmãos, que se erguem! São canções… / Mas de guerra… e são vozes de rebate! / / Ergue-te, pois, soldado do Futuro,».

Num outro soneto, depois de falar «Dum Deus que luta, poderoso e inculto» e que se manifesta nas florestas, na serra, no espaço constelado, no mar, estabelece o contraste com o que se verifica nas «negras cidades», naquilo que me parece ser clara alusão às consequências da Revolução Industrial: «Mas nas negras cidades, onde solta / Se ergue, de sangue, a revolta, /

Como incêndio que um vento bravo atiça, / /Há mais alta missão, mais alta glória: / O combater, à grande luz da história, / Os combates eternos da Justiça!».
Em meio a essas actividades, foi acometido por crescente descontentamento. Abandonou muitos projectos e rasgou antigas poesias. A seguir, desenvolveu séria doença na coluna para a qual os tratamentos traziam apenas alívio temporário. Durante período de calma intermitente, escreveu alguns de seus últimos e melhores sonetos. Em 1881, retirou-se para Vila do Conde, assumindo a educação das filhas, entretanto órfãs, de Germano Meireles, um seu amigo, e vivendo em relativa calma até ao fim dessa década. Aceitou ainda, em 1890, a presidência da Junta Patriótica do Norte, um dos movimentos da reacção do ultimato inglês. Aos seus problemas pessoais e à persistência da doença, somava-se a desilusão face ao estado do país. Em 1891 regressou a Ponta Delgada e, nesse mesmo ano, suicidou-se. Sofrendo de intensa dor física, insónia e de pressão aguda, sentou-se em frente ao Convento do Senhor Santo Cristo dos Milagres, num banco de cimento onde estava gravada a imagem de uma âncora atravessada em diagonal pela palavra “ESPERANÇA”, e lá se suicidou, com dois tiros no peito.

A obra de Antero, que reflecte, quer uma evolução, quer a coexistência simultânea de várias facetas da sua personalidade e de um intenso drama interior, é fundamentalmente a de um pensador, de um doutrinário e conceptualizador. Mesmo o sentimento erótico e amoroso, presente em poemas de juventude, acaba por se tornar fundamentalmente alegórico, reflectindo anseios e abstracções, mais do que uma emotividade pessoal do poeta. Porém, a cruel realidade da vida desvanece tamanho altruísmo e o herói vacila, evidenciando um espírito cada vez menos sereno e comportando-se como barco à deriva em mar revolto e tempestuoso, em busca desesperada dum seguro porto de abrigo. Se, num soneto, por exemplo, faz a apologia da luz, num outro, embrulha-se na protecção da noite: «Amem a noite os magros crapulosos, / e os que sonham com virgens impossíveis, / E os que se inclinam, mudos e impassíveis, / À borda dos abismos silenciosos… / / […] / / Eu amarei a santa madrugada, / E o meio-dia, em vida refervendo, / E a tarde rumorosa e repousada. / / Viva e trabalhe em plena luz: depois, / Seja-me dado ainda ver, morrendo, / O claro Sol, amigo dos heróis!». «Noite, vão para ti meus pensamentos, / Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, / Tanto estéril lutar, tanta agonia, / E inúteis tantos ásperos tormentos…». É inegável que é já o reflexo do desalento que manifestará em muitos outros poemas, de que é exemplo paradigmático O Palácio da Ventura, um soneto em que podemos assistir a uma espécie de balanço introspectivo da sua vida: «Sonho que sou um cavaleiro andante / Por desertos, por sóis, por noite escura. / Paladino do amor, busco anelante / O palácio encantado da Ventura!»

Apesar das adversidades anunciadas, de forma eloquentemente metafórica, no segundo verso, este paladino do amor (universal), procura, ansiosamente, o palácio da Ventura, isto é, tudo o que possa simbolizar o seu sossego, a sua tranquilidade, no fundo, a felicidade a que todo o ser humano aspira por direito de nascença. Todavia, antevê-se já a frustração final deste cavaleiro. É que se trata de um cavaleiro que se não afirma como sendo, mas como sonhando que é, e, como se não bastasse, o quarto verso aponta para um objecto de busca que só ganha forma no mundo a que pertence, o mundo feérico e onírico, o mundo da fantasia. «Mas já desmaio, exausto e vacilante, / Quebrada a espada já, rota a armadura… / E eis que súbito o avisto, fulgurante / Na sua pompa e aérea formosura!»

(Conclui amanhã)

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