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PESTE – Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

José Anastácio Verde tem uma loja de ferragens na Rua dos Fanqueiros, em Lisboa. É um comerciante bem sucedido e dono ainda de uma quinta em Linda-a-Pastora (a uns quinze quilómetros da capital). Em 1852 casa com Maria da Piedade dos Santos. O casal vai morar num andar de um prédio na Rua da Padaria, próximo da velha Sé de Lisboa. Em 1853 nasce-lhes Maria Júlia, a primogénita. Em 1855 o segundo filho, José Joaquim CESÁRIO. E no ano seguinte, Adelaide Eugénia, menina que morrerá com 3 anos. Em 1858, Joaquim Tomás, o quarto filho. E em 1862, Jorge, o quinto e último filho.

 Próximo da Rua da Padaria há um arco escuro onde se acumulam excrementos e cabeças de peixe. A Baixa de Lisboa é toda assim, não lhe faltam focos de infeção em becos e vielas. No Verão de 1857 irrompe a febre amarela, peste a ceifar a vida dos lisboetas. Os Verde abandonam a capital, refugiam-se em Linda-a-Pastora. CESÁRIO evocará a fuga:

 Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre E o Cólera também andaram na cidade, Que esta população, com um terror de lebre, Fugiu da capital como da tempestade. 

 Ora meu pai, depois das nossas vidas salvas, (Até então nós só tivéramos sarampo) Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

 Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga: O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos; Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

(…)

                             

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