Desnudos, deitados na cama, Padre Inocêncio com uns 55 anos e Aurora mais nova, talvez uns 45. Ela pergunta: – Onde está o sacristão? – Está na horta, tem lá muito que fazer. – Quanto tempo é que ele demora? – Pelo menos mais meia hora. – Então ainda temos tempo para dar mais uma.
Aurora atira-se ao Padre, beijos, suspiros, erotismo, ela com um orgasmo gritado.
– Andas sempre com fome. – De ti tenho sempre fome, és o meu homem. – O teu homem é o Joaquim. – Esse é o meu marido, o meu homem és tu. – Que distinção é essa? – O Joaquim, coitado, raramente se explica na cama. Nem sei como ele conseguiu tirar-me os três vinténs. – Que linguagem ordinária… – Mas verdadeira. Só por isso eu digo que a Isabel é tua filha.
Padre Inocêncio levanta-se e começa a vestir-se.
– E eu gosto dela como se fosse realmente minha filha. – E é, já te disse que é.
Aurora levanta-se e também ela começa a vestir-se. Diz-lhe o Padre Inocêncio:
– Pecado, isto é tudo um pecado! E mortal, mortal… – Lá será… Mas como Deus nos fez assim, bem sabe como somos e acabaremos por ser perdoados. – Isso dizes tu, porque és apenas uma mulher que sucumbiu à tentação. – E tu és apenas um homem que sucumbiu à tentação. – Mas sacerdote, sacerdote! Já te esqueceste? Já viste a dimensão do meu pecado?
O padre a benzer-se, gesto largo e lento. Ela a benzer-se duas vezes, gesto veloz e curto.