PECADO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Desnudos, deitados na cama, Padre Inocêncio com uns 55 anos e Aurora mais nova, talvez uns 45. Ela pergunta:
– Onde está o sacristão?
– Está na horta, tem lá muito que fazer.
– Quanto tempo é que ele demora?
– Pelo menos mais meia hora.
– Então ainda temos tempo para dar mais uma.

Aurora atira-se ao Padre, beijos, suspiros, erotismo, ela com um orgasmo gritado.

– Andas sempre com fome.
– De ti tenho sempre fome, és o meu homem.
– O teu homem é o Joaquim.
– Esse é o meu marido, o meu homem és tu.
– Que distinção é essa?
– O Joaquim, coitado, raramente se explica na cama. Nem sei como ele conseguiu tirar-me os três vinténs.
– Que linguagem ordinária…
– Mas verdadeira. Só por isso eu digo que a Isabel é tua filha.

Padre Inocêncio levanta-se e começa a vestir-se.

– E eu gosto dela como se fosse realmente minha filha.
– E é, já te disse que é.

Aurora levanta-se e também ela começa a vestir-se. Diz-lhe o Padre Inocêncio:

– Pecado, isto é tudo um pecado! E mortal, mortal…
– Lá será… Mas como Deus nos fez assim, bem sabe como somos e acabaremos por ser perdoados.
– Isso dizes tu, porque és apenas uma mulher que sucumbiu à tentação.
– E tu és apenas um homem que sucumbiu à tentação.
– Mas sacerdote, sacerdote! Já te esqueceste? Já viste a dimensão do meu pecado?

O padre a benzer-se, gesto largo e lento. Ela a benzer-se duas vezes, gesto veloz e curto.

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