*Sapienza Universidade de Roma
Por minha parte, eu tenho longamente cultivado a ambição de me tornar uma espécie de “cartógrafo” no sentido borgesiano. De fato, o desejo de escrever uma história da cultura (da cultura letrada, em particular) brasileira vem crescendo dentro de mim há muito tempo e com certeza não vai ser satisfeita por um livro que eu escrevi e que deveria sair ainda este ano. E isso, não só porque ele nasceu sob o signo da insuficiência e da falta – sendo eu consciente de ser incapaz e, aliás, de não estar interessado em cobrir todo o arco temporal ocupado pelo surgimento, pela ampliação e articulação da produção intelectual e artística brasileira, sem falar da dificuldade em identificar um início e uma linha de desenvolvimento –, e sim porque eu estava convencido de antemão da inutilidade de qualquer síntese, da impossibilidade de escrever, hoje, uma história tradicional, marcada pelo caráter con-sequencial dos acontecimentos.
Uma obra deste tipo correria, com efeito, o risco (na verdade, incontornável) de ser arbitrária e ideologicamente orientada, de ser, em suma, apenas uma narrativa montada à vontade do autor. Porque, diante da necessidade de ser exaustiva, uma historiografia de cunho clássico deveria, em princípio, ser capaz de alistar uma série praticamente infinita de nomes e de fatos, que não satisfazem, todavia, que não poderiam chegar a satisfazer todas as possibilidades que a cada momento aparecem ao longo do tempo, e que, por isso, devem ser filtrados, escolhidos, dispostos numa ordem que responderia, no máximo, a uma exigência classificatória ou taxionômica (fatalmente subjetiva), de origem espacial ou temporal. Melhor, então, muito melhor diante desse fracasso anunciado, assumir desde o início a obrigação de pensar a dimensão histórica de forma parcial e fatalmente inconsequente, ou seja, melhor levar em conta a impossibilidade de uma revisão completa do passado e aceitar de antemão as lacunas do ponto de vista sincrônico e a intempestividade do ponto de vista diacrônico, montando, então, uma estrutura (memorial e cognitiva) em forma de rede. Um paradigma imperfeito, certamente – um paradigma mergulhado, aliás, no mar da grande crise paradigmática que estamos vivendo –, onde as ligações entre os vários fatos, dispostos no espaço e no tempo, não dependem de nenhuma necessidade ou consequencialidade, mas apenas do eventual encontro e/ou da sobreposição momentânea de instâncias diferentes. A história assumiria, assim, a forma de um tecido atravessado por fios de natureza variada, que se entrelaçam ou que correm em paralelo sem nunca se encontrar – “suspeitas de cor”, “marcas quase apagadas”, como diria Foucault, mas de que seria todavia necessário “tomar cuidado”, dentro de uma meada multicolor, de um enredo temporal não homogêneo.
Tudo isso depende não apenas da amplidão geográfica e da diferenciação sociocultural e ambiental do território brasileiro, mas também (e antes disso) do questionamento constante do estatuto da historiografia, a partir, sobretudo, da perda de valor, do desmoronamento do Estado-Nação e da interrogação sobre o nível de verdade ou de verossimilhança de todo discurso historicista. Não por acaso, seja no contexto europeu seja no americano, nunca foram tantos os livros, os artigos, os manuais tentando definir “como se escreve a História”: obras produzidas por filósofos ou historiadores de profissão, refletindo, em primeira instância, sobre o modo (ou os modos) de entender o trabalho historiográfico e sobre como armar, mais em particular, uma história da cultura que leve em conta as mais variadas formas de manifestação daquilo que se entende por “cultura”. Quanto à “escrita da História”, como se sabe – a partir sobretudo da reflexão de Friedrich Nietzsche sobre a noção de Origem e sobre a questão do lugar de onde fala quem fala do passado –, temos assistido, ao longo do séc. XX, a tentativas sucessivas de definir aquilo que eu chamaria uma “epistemologia do fazer histórico”, envolvendo problemas de caráter ideológico e ético, social e metodológico que desembocaram, por um lado, na afirmação, por exemplo, da “micro-história” ou na definição dos lieux de mémoire e, pelo outro, na proposta de Hayden White de considerar toda reconstrução do passado apenas como um relato metafórico ou ficcional daquilo que realmente aconteceu. Quanto à maneira de entender a história da cultura, também nesse caso temos assistido a uma evolução significativa dos modos de representação das práticas e dos produtos culturais, sobretudo no âmbito, justamente, dos cultural studies, exigindo a recuperação e a análise dos discursos dos marginais, das minorias, dos subalternos.
Diante deste imenso panorama de teorias e de estudos em perene andamento, a minha proposta (modesta, muito modesta) é a de voltar a pensar – e a pisar – o chão histórico sem nenhuma pretensão de chegar a uma síntese, mas tomando cuidado das fendas que se abrem ao longo do caminho ou se colocando nos cruzamentos entre caminhos diferentes (numa posição trivial, como diria Roland Barthes): para tentar apanhar, enfim, um sentido que se oferece apenas por instantes à nossa vista, nos percalços, nas clareiras ou nas encruzilhadas que povoam o panorama das relações entre a realidade e a sua representação. Porque acho que é justamente aqui, nesse enleio entre o mundo e a imagem dele, entre conceito e fantasia, entre “o que foi” e “o que pôde ser”, que vamos encontrar um outro modo de pensar o passado: não na forma de uma sequencia ordenada, e sim no modo ainda enredado e complexo embasado num conjunto inextricável de realidades e virtualidades, de fatos e artefatos.
O resultado (um dos resultados) poderia ser uma obra “aberta” que procure falar da cultura brasileira não nos termos categóricos ou normativos de uma História no sentido clássico, e sim colecionando fragmentos de ideias, imagens parciais que surgem ao longo (ou ao redor) do percurso/discurso historiográfico: noções desconectadas e aparentemente incompatíveis que aparecem na viagem através dos textos ou à margem deles, reorganizadas em volta de alguns “lugares comuns” onde se misturam o acontecido e o imaginado. O tempo (a relação entre passado, presente e futuro: a história, enfim) se apresentaria, assim, não como um continuum de acontecimentos interligados, mas como um panorama – anacrônico, intempestivo e espacialmente indeterminado – povoado por vozes e silêncios, por experiências e fantasias que encontram a sua razão de ser apenas num trabalho perseverante de reconstrução de um sentido possível.
