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POESIA AO AMANHECER – 287 – por Manuel Simões

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JAIME ROCHA

( 1949 )

VISÃO VINTE E QUATRO

O que construíra o pedreiro que agora não podia

suportar? Que sonhos se lhe haviam colado

ao pensamento? Eram duas as garras que lhe

apanhavam os ombros e que ele nunca quis

acreditar que poderiam ser de um corvo ou de

uma aranha saída do musgo. Preferiu dizer que

era um peso, uma força qualquer que tinha a forma

de um tijolo. Ou de um anjo preto. Tal como os

outros pedreiros, julgava-se uma árvore, um tronco

indestrutível agarrado a uma falésia. Com umas

mãos rugosas à espera de um seio e um corpo

de aço pronto a cortar o universo em dois.

É a sombra que me mete medo, dizia o pedreiro,

ou o que está dentro dela.

E é nessa zona que ele vive e constrói

os muros, indefinidamente, para saber o que

germina do lado de lá, onde supõe que esteja a

verdade do mundo. Talvez ali não existisse

apenas uma visão nua, um corpo deitado

coberto de alumínio.

(de “Os que Vão Morrer”)

Jornalista, poeta e romancista. Obra poética: “Melânquico” (1970), “A Dança dos Lilazes” (1982), “Beber a Cor” (1985), “A Perfeição das Coisas” (1988), “Os que Vão Morrer” (2000), “Do Extermínio” (2003).

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