Se necessitássemos de uma prova de que os partidos políticos constituem uma forma imperfeita e, sobretudo, inadequada à realidade dos nossos dias, as divergências de fundo que estão a vir à superfície nos partidos do “arco do poder” constituiria essa prova. Há críticas vindas do interior do partido do governo, mais aceradas e indo mais ao cerne do problema, do que as que são feitas pelo principal partido da oposição. No comentário no programa Política Mesmo na TVI24, a ex- presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, verbalizou o mínimo que se pode dizer sobre a lei, aprovada em Conselho de Ministros e que estabelece a convergência de pensões entre o sector público e o sector privado, reduzindo em 10% as que superem os 600 euros – é “imoral”.
Desvalorizando a constitucionalidade da medida, considera que «no ponto fundamental é profundamente imoral. E na política, como na vida, nós, a despeito dos objectivos, temos de olhar aos meios que utilizamos para atingir esses objectivos” na política é necessário existirem “princípios e valores” que “têm estar presentes nas decisões”. “Este é um caso dramático e gritante e algo que não pode ser feito numa sociedade e que a sociedade não pode aceitar.” E considera fruto da “leviandade, ligeireza e superficialidade” (…) “Agride princípios tão fundamentais e tão básicos do que é a relação entre as pessoas, do que é a construção de vida das pessoas, do que é o drama que implica nas pessoas, que não creio que haja o direito de ser aplicada sem ser com uma profunda ponderação que deve envolver as forças vivas deste país”. E considerou “brincadeira de mau gosto” que esta medida seja apresentada como temporária enquanto o país estiver em crise porque os objectivos do Governo não serão atingidos. “O único objectivo disto é transmitir ao Tribunal Constitucional que esta é uma medida temporária e não definitiva. “Não sei quem acredita nisto”.
E disse aquilo que todos antevêem: . “Esta medida é um teste a pessoas que não fazem greve, que não têm representação na concertação social, que não têm nenhuma legislação que os proteja. Mas é evidente que isto não resolve nenhuma reforma orçamental.” Lamentando que “haja um partido social-democrata e um partido democrata cristão que subscrevem uma situação desta natureza”.“Uma sociedade que aceita esta situação, de se poder socializar uma classe de reformados, é uma sociedade que está doente”, concluiu.
Noutro painel do políptico de Bosch que este executivo está a erguer, regista-se o confronto verbal entre o ministro Nuno Crato e uma jovem professora. As respostas de Crato, que muitos de nós considerávamos um homem inteligente e honesto, deixam-nos perante o dilema de qual dos atributos lhe podemos conservar. Honestidade e inteligência são incompantíveis neste bando que cumprindo o seu sonho de ser ministros, transforma o país num pesadelo para os que trabalham e para os que tendo trabalhado e pago adiantadamente uma relativa tranquilidade na velhice, se vêem despojados de tudo por esta gente que, estúpida, desonesta, ou ambas as coisas, dá provas de uma insensibildiade imoral.