DIÁRIO DE BORDO, 14 de Julho de 2012

 

No Sol de ontem, José António Saraiva, no editorial Política a Sério, faz uma série de lamentações sobre a extensão das declarações vindas a público no sentido de que a receita aplicada pelo actual governo falhou. Inclusive afirma que só por leviandade, falta de inteligência ou de informação se pode afirmar que “está provado que este caminho falhou”.  E lamenta que (na sua opinião, claro) a comunicação social ajude à festa (palavras suas), dando destaque á acção dos três canais televisivos. Considera que os factores de instabilidade são, assim, potenciados, “pondo o país a ferro e fogo, parecendo por vezes que já vivemos em ambiente pré-insurreccional”. Acaba interrogando-se sobre se a democracia é compatível com uma recessão prolongada, e afirma que as democracias modernas são sustentadas pela classe média, que o horizonte das gerações futuras é viverem pior que as actuais, e faz ainda outra pergunta: serão as democracias compatíveis com o definhamento das nações?


Diário de Bordo atreve-se a afirmar que António José Saraiva percebe que o país está mesmo a definhar e que isso se deve às políticas governamentais. Deste e de anteriores governos, com certeza. Mas também que o director de o Sol percebe que o governo de Passos Coelho não descobriu a saída do túnel  e que os portugueses,  na realidade, estão cada vez mais longe do lhe ver o fim. Simplesmente, não quer reconhecer que há políticas alternativas, aliás recomendadas por muitos sectores de opinião. Em vez de discutir essas alternativas, opta por pôr em dúvida a compatibilidade da democracia com a recessão. Trata-se obviamente de um lapso, mas de um lapso grave da parte do director de um jornal semanário, que inclusive agora assinou um protocolo de parceria com a Confederação Empresarial da CPLP, segundo nos informa. É verdade que já não é o primeiro a sugerir o fim da democracia em Portugal. Alguns até já propuseram abertamente uma interrupção.


O poder económico dá-se mal com a democracia, este é que é o problema. Um problema conhecido, mas pouco tratado, constituindo um autêntico tabu para a comunicação social. A concentração de riqueza é um dado adquirido, não é para se pôr em causa. E procura-se reforçá-la, apesar de se saber que afecta seriamente a vida do país.


A recente decisão do Tribunal Constitucional relativamente à suspensão dos subsídios de férias e do Natal foi agora explicada pelo presidente deste órgão como baseada na constatação de não só ter criado uma discriminação entre o sector público e o sector privado, mas também entre o sector do trabalho e os rendimentos do capital. Este é um ponto fulcral da crise que atravessamos, e apesar de toda a agitação que preocupa António José Saraiva, pouco tem sido abordado na comunicação social, sobretudo ao nível dos cabeçalhos e das aberturas dos telejornais, dos quais a maioria das pessoas não passa, ao lerem o jornal ou quando abrem a televisão. A situação tende a ser  agravada pela procura descabelada de receitas  por parte do governo, que tem causado situações contraproducentes como a que predomina no Algarve, em boa parte derivada da introdução de novas portagens, sem acautelar os prejuízos resultantes. Até António Pina, presidente de Turismo da região, no mesmo número de o Sol, afirma que o governo vai perder dinheiro por causa das indemnizações que vai ter de pagar á concessionária.

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