CELEBRANDO NATÁLIA CORREIA (5) – por Álvaro José Ferreira
carlosloures
(Continuação)
Poema Destinado a Haver Domingo
Poema: Natália Correia (in “Passaporte”, Lisboa: Edição de autor, 1958; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 205; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 153-154) Música: Aníbal Raposo Arranjo: Carlos Frazão Intérprete: Helena Oliveira* (in CD “Helena Cant’Autores Açorianos”, Helena Oliveira, 2007) Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Maré Cheia”, MM Music, 1999)
Bastam-me as cinco pontas duma estrela
E a cor dum navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.
Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio do cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.
Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.
Deixem ao dia a cama dum domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.
Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.
* Carlos Frazão – piano Mike Ross – contrabaixo Manuel Rocha – violinos Joaquim Manuel Teles (Quiné) – bateria e percussões Helena Oliveira – voz Direcção musical – Carlos Frazão e Helena Oliveira Concepção artística – Helena Oliveira Concepção de percussão – Joaquim Manuel Teles (Quiné) Concepção de violinos – Manuel Rocha Concepção de contrabaixo – Mike Ross Produção executiva – Jorge Lavouras e Helena Oliveira Gravação – Raul Resendes Misturas – Raul Resendes e Carlos Frazão Edição de voz e masterização – António Pinheiro da Silva
O Encontro
Poema: Natália Correia (de “Rebis”, in “O Vinho e a Lira”, Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitoes, 1993 – pág. 303; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 231-232) Música: Amélia Muge Arranjo: António José Martins Intérprete: Amélia Muge* (in CD “A Monte”, Vachier & Associados, 2002)
Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado
um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca
como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso
como se eu já existisse a
ntes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua
como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno
como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor.
* Amélia Muge – voz António José Martins – piano, percussões Catarina Anacleto – violoncelo José Manuel David – acordeão Produção – António José Martins Produção executiva – Vachier & Associados Gravado no Estúdio AJM, Sobreda, em Dezembro de 2000 e Fevereiro de 2002, e no Auditório Fernando Lopes Graça, Almada, em Agosto de 2001 Misturado por João Magalhães, António José Martins e António Pinheiro da Silva Masterizado por António Pinheiro da Silva
O TESTAMENTO DOS NAMORADOS
Poema de Natália Correia (de “Rebis”, in “O Vinho e a Lira”, Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 308; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 235-236) Recitado pela autora* (in EP “Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria”, col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD “A Defesa do Poeta”, EMI-VC, 2003)
Escolhamos as coisas mais inúteis
o verde água o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.
Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.
Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança.
* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos Técnico de som – Hugo Ribeiro Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores