Pérolas da música portuguesa votadas ao ostracismo – “Destinado a haver domingo” – por Álvaro José Ferreira

 

 

 

Ouça! Ouça!… Não deixe de ouvir até ao fim, pois assim terá oportunidade de exclamar: «É realmente incompreensível que pérolas deste quilate estejam excluídas da ‘playlist’ da Antena 1, o canal generalista da rádio estatal que tem a obrigação legal (formalmente estabelecida no contrato de concessão do serviço público de radiodifusão) de divulgar a melhor música portuguesa!!!

 

Ao mesmo tempo que estas pérolas são votadas ao ostracismo, constata-se que a referida ‘playlist’ está atulhada de subprodutos (exógenos e endógenos), muitos dos quais promovidos ‘ad nauseam’.

O que se disse a respeito da Antena 1 aplica-se igualmente à Antena 3, outro canal do chamado “serviço público de rádio” que marginaliza, de forma perfeitamente criminosa, o nosso património musical mais valioso e qualificado. Fica à reflexão dos pagantes da contribuição do audiovisual (que actualmente se cifra em €27,00 anuais + I.V.A.) e de quem tem nas suas mãos o poder para pôr cobro a tão aberrante anormalidade.

 

Poema Destinado a Haver Domingo Poema: Natália Correia (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo] Música: Aníbal Raposo Intérprete: Helena Oliveira* (in CD “Helena Cant’Autores Açorianos”, Helena Oliveira, 2007) [>> YouTube] Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Maré Cheia”, MM Music, 1999)

 

[instrumental]
 
Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor de um navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.
 
Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.
 
Só há espigas a crescer comigo
Numa seara p’ra passear a pé
Esta distância achada p’lo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.
 
[instrumental]
 
Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.
 
Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto de uma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.
 
Só há espigas a crescer comigo
Numa seara p’ra passear a pé
Esta distância achada p’lo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.
 
[instrumental]
 
 
* Carlos Frazão – arranjo e piano
Mike Ross – contrabaixo
Manuel Rocha – violinos
Joaquim Manuel Teles (Quiné) – bateria e percussões
Helena Oliveira – voz
Direcção musical – Carlos Frazão e Helena Oliveira
Concepção artística – Helena Oliveira
Concepção de percussão – Joaquim Manuel Teles (Quiné)
Concepção de violinos – Manuel Rocha
Concepção de contrabaixo – Mike Ross
Produção executiva – Jorge Lavouras e Helena Oliveira
Gravação – Raul Resendes
Misturas – Raul Resendes e Carlos Frazão
Edição de voz e masterização – António Pinheiro da Silva
URL: http://www.myspace.com/helenamaroliveira
http://helenalavouras.blogspot.com/
http://www.hmmusica.pt/Helena-Oliveira
 
 
 
POEMA DESTINADO A HAVER DOMINGO
 
(Natália Correia, in “Passaporte”, Lisboa, 1958; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999)
 
 
Bastam-me as cinco pontas duma estrela
E a cor dum navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.
 
Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio do cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.
 
Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.
 
Deixem ao dia a cama dum domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.
 
Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.
 

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