(Conclusão)
Corpo Abolido
Poema: Natália Correia (“Balada para um homem na multidão”, de “O Diário de Cynthia”, in “O Vinho e a Lira”, Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 330; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 249) Música: José Cid Intérprete: José Cid* (in EP “Camarada”, Columbia/VC, 1972; CD “O Melhor de José Cid”, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no Japão
a diferença é ele ignorar.
Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.
Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.
Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.
* Todos os instrumentos executados por José Cid
Do Sentimento Trágico da Vida Poema
Natália Correia (de “Apontamentos”, in “Poemas”, Porto: Edição de autor, 1955; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 100; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 83-84) Música: Teresa Gentil Intérprete: Teresa Gentil* (in CD “Natália Descalça”, Descalças – Cooperativa Cultural, 2006)
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
* Teresa Gentil – guitarra, flauta de bisel, adufe, voz e coros Miguel Cardoso – contrabaixo e caxixi Cláudia Rangel – coros Produção – Descalças – Cooperativa Cultural (S. Vicente Ferreira, ilha de São Miguel, Açores) Produção executiva – Sara Seabra Gravação – Cláudia Rangel, Joaquim Azevedo e Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, entre os dias 20 e 28 de Outubro de 2006 Mistura – Cláudia Rangel e Teresa Gentil
SETE MOTIVOS DO CORPO (I)
Poema de Natália Correia (in “Armistício”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 243; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 516) Recitado por Afonso Dias* (in CD “Poesia de Natália Correia”, col. Selecta, Música XXI, 2007)
Não te importe, ó mortal, depois de morto
Desaparecer na curva do caminho.
Aqui és corpo; e injuriar o corpo
É pisar a sombra do divino.
Lúcida a carne, num fugaz milagre,
É de eternos assuntos a medida:
De ar, água, terra e fogo sumidade,
Lugar de amor onde se ganha a vida.
Se concorrem na alma embuste e danos,
O corpo em qualquer língua é verdadeiro.
P’ra que ao além não fie a Parca enganos,
Retrata-nos a morte em corpo inteiro.
Vem das estrelas o sangue que nos guia
E em amorosa perfeição na carne
Está toda a eternidade resumida.
Corpo! Sombra de deus. Simples verdade.
* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn
Credo
Poema: Natália Correia (“Creio nos anjos que andam pelo mundo”, poema IV de “Poesia: ó véspera de prodígio!”, in “Sonetos Românticos”, Lisboa: O Jornal, 1990; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 392; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 616) Música: Janita Salomé Intérprete: Janita Salomé* (in CD “Raiano”, Farol Música, 1994)
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
* Janita Salomé – voz Dudas – guitarra de 12 cordas, guitarra clássica Paulo Jorge Santos – guitarra portuguesa João Falcato – piano, sintetizador Carlos Barreto – contrabaixo Arranjo – Rui Luís Pereira Direcção musical – Fernando Júdice e Janita Salomé Produção – Fernando Júdice Gravado e misturado no Regiestúdio, Amadora Técnico de som – Branko Neskov Masterizado por Mike Brown (Inglaterra)
Tomai estes meus versos na vazante
Poema de Natália Correia (poema XI de “Na câmara de reflexão”, in “Sonetos Românticos”, Lisboa: O Jornal, 1990; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 371; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 601) Recitado por Telma Veríssimo* (in CD “Poesia de Natália Correia”, col. Selecta, Música XXI, 2007)
Tomai estes meus versos na vazante
Da lua cheia que foi a minha vida:
Ora monja, ora maga, amortecida
No júbilo. Na dor esfuziante.
De nácar e cetim felina amante
Mas só pelo prazer da despedida.
Sala por sonhos muito concorrida
Sempre a contar com um deus num visitante.
Plenilúnio num campo de ruínas;
Ó cinzas seminais da renovada
Pena de aladas obras sibilinas!
E de tanto me encher, maré vazada
Que por tomar a peito ordens divinas,
Me despeço. Que não aposentada.
* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn
Capa do CD “A Defesa do Poeta” (EMI-VC, 2003) Faixas 1 a 6: do EP “Natália Correia Diz Poemas de sua Autoria” (Decca/VC, 1969) Faixa 7: do LP “Mudam-se os
Tempos, Mudam-se as Vontades” (Guilda da Música/Sassetti, 1971) Faixas 8 a 27: do LP “Alegre Eu Ando” (Decca/VC, 1972) Adaptação de cantigas de trovadores galego-portugueses por Natália Correia Acompanhamento: Viola – Cristiana Piano – António Victorino d’Almeida Faixas 28 a 32: do LP “Cantigas de Amigos” (Columbia/VC, 1971) Adaptação de cantigas de trovadores galego-portugueses por Natália Correia Direcção de edição – Helena Roseta com o apoio de David Ferreira Produção executiva – Maria João Fortes, Helena Mata, Helena Evangelista, João Ruas e Aldina Duarte Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores





* Uma mulher que apenas quis ser simplesmente Mulher .Maria *