CELEBRANDO NATÁLIA CORREIA (8) – por Álvaro José Ferreira

(Continuação)

 

Rio de Nuvens (VIII)

Poema: Natália Correia (in “Rio de Nuvens”, Coimbra: Edição de autor, 1947; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 22; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 45) Música: Custódio Castelo Intérprete: Cristina Branco* (in CD “Corpo Iluminado”, Universal Music France, 2001)

Turva hora onde

Principia a noite

E o dia se esconde.

Hora de abandonos

Em que a gente esquece

Aquilo que somos

E o tempo adormece.

Nevoenta hora,

Hora de ninguém Em

que a gente chora

Não sabe por quem.

E tudo se esconde

Nessa hora onde

Por estranha magia

Brilha o sol de noite

E o luar de dia.

* Custódio Castelo – guitarra portuguesa Alexandre Silva – viola Fernando Maia – viola baixo Produção e arranjos – Custódio Castelo Co-produção em estúdio – Fernando Nunes Produção executiva – Yann Ollivier Gravado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro de 2001

Nictofagia

Poema: Natália Correia (in “Passaporte”, Lisboa: Edição de autor, 1958; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 206; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 154-155) Música: Aníbal Raposo Intérprete: Aníbal Raposo* (in CD “A Palavra e o Canto”, Açor/Emiliano Toste, 2005)

Se eu pudesse beber-te, ó noite,

Até encontrar o teu gosto,

Ou mordendo a ponta do açoite

Da tua treva no meu rosto,

Achasse a planície de lume

De que és uma aresta de estrelas

E sonhando sem peso e volume

Fosse um sonho do chão a tecê-las

E na praia de um trilo sem flauta,

Instrumento das harpas do fundo

Duma água escorrida da pauta

Da manhã mais antiga do mundo,

Me estendesses, ó noite florida

Das sementes que trazes no punho,

Uma manhã de ouro impelida

Pelo arco das brisas de Junho!

* Aníbal Raposo – voz Carlos Frazão – piano Eduardo Botelho – guitarras Emanuel Bettencourt – percussões Zica – baixo Gravação, mistura e masterização – Eduardo Botelho, nos Estúdios M.M. Music, Ponta Delgada, nos anos de 2003 a 2005

Sete Luas

Poema: Natália Correia (“Há noites que são feitas dos meus braços”, poema IV de “A recusa das imagens evidentes”, in “Dimensão Encontrada”, Lisboa: Edição de autor, 1957; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 162-163; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 117-118) Música: Renato Varela (Fado Varela) Arranjo: Ricardo J. Dias Intérprete: Mísia* (in CD “Garras dos Sentidos”, Erato, 1998)

Há noites que são feitas dos meus braços

E um silêncio comum às violetas.

E há sete luas que são sete traços

De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levamos à cintura

Como um cinto de grandes borboletas.

E um risco a sangue na nossa carne escura

Duma espada à bainha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás

Enrolados no nosso desencanto

E cisnes brancos que só são iguais

À mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde

O fantasma de nós fica mais perto;

E é sempre a nossa voz que nos responde

E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras

E a nossa exactidão de rosa vil

Reconcilia no frio das esferas

Os astros que se olham de perfil.

* Mísia – voz Ricardo J. Dias – piano Manuel Rocha – violino Mário Franco – contrabaixo Direcção musical – Ricardo J. Dias Co-direcção – Mísia Produção executiva – Ricardo J. Dias Gravado nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Outubro de 1997 Técnico de som – Nuno Pimentel Mistura – Ricardo J. Dias e Mísia (Studios Plus XXX, Paris) Técnico de som – Emmanuel Pothier Masterização – Yves Delaunay (Dyam Studios, Paris)

Passageira da Noite

Poema: Natália Correia (“Em cada estrela cadente”, in “Rio de Nuvens”, Coimbra: Edição de autor, 1947; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 32; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 50-51) Música: Francisco Viana (Fado Vianinha) Intérprete: Patrícia Costa* (in CD “Um Cantar Velado e Lento”, Patrícia Costa, 2010)

Em cada estrela cadente

Que vai perder-se no rio

Uma parte de mim parte

No mistério de um navio.

Sou passageira da noite,

Num veleiro de luar.

O porto onde eu embarquei

É onde devo parar.

A onda que vem à praia

E volta de novo ao mar,

Abriu um lírio na areia

Que a brisa vem desfolhar!

Passem navios ao longe,

Num jeito de não parar!…

* João Penedo – contrabaixo Gravação e mistura – Francisco Maldonado, no Porto Masterização – Francisco Maldonado, em Londres

(Continua)

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