REVISITAR A SOCIEDADE PORTUGUESA PELA MÃO DE MARIA KEIL – AZULEJOS por clara castilho
clara castilho
No texto de apresentação da exposição patente no Palácio da Cidadela em Cascais, e de que temos vindo a falar, Alexandre Pais apresenta-nos esta parte da obra de Maria Keil.
“Fundamental no reconhecimento do azulejo enquanto expressão artística, no enquadramento da renovação arquitectónica ocorrida em Portugal, entre as décadas de 1950-60, Maria Keil é uma presença constante no quotidiano lisboeta. A pesquisa efectuada uma procura de novas expressões plásticas e a relação com a arquitectura e a funcionalidade dos locais onde os azulejos eram aplicados são dois dos aspectos mais relevantes de uma obra pessoal, atenta ao mundo que a rodeava, reinterpretando influências e a história à luz de novos desafios.
Empregando uma linguagem na qual predomina o abstratismo geométrico e onde é patente algum experimentalismo óptico, o seu trabalho refletce uma procura constante de novas soluções, a reinvenção de elementos que, não obstante serem empregues com recorrência, assumem permanentemente novas identidades. A característica geometrização do seu trabalho poderia conduzi-la a uma certa frieza, nascida de uma linguagem plástica, no entanto, a forte presença da sua sensibilidade veio dotar a obra de Maria Keil de uma poesia vibrante e surpreendentemente humana”.
A importância da sua intervenção na área do azulejo foi reconhecida pela sua presença em exposições. Em 1970, a azulejaria que fez para o metropolitano esteve presente na Exposição de Azulejaria Contemporânea, organizada na Fundação Calouste Gulbenkian”. Em 1989, o Museu Nacional do Azulejo, dedicou uma exposição monográfica ao seu trabalho. Em 23 de Maio de 2012, Maria Keil recebeu o prémio “Obra de vida” atribuída por SOS Azulejo (projecto de iniciativa e coordenação do Museu de Polícia Judiciária que nasceu da necessidade de combater a grave delapidação do património azulejar português), numa homenagem que ocorreu poucos dias antes de falecer.
Seu filho Francisco Keil do Amaral enviou um texto ao SOS Azulejo, onde referiu: “Não foi fácil levar a artista Maria Keil à festa de distribuição de prémios do S.O.S. Azulejo. Não só a sua saúde estava já muito fragilizada, como a, por vezes difícil, modéstia da sua personalidade a impelia a recusar homenagens e aparições públicas. Mas foi, e ficou sensibilizada. Apesar de pouco já ver, e até ouvir, foi-lhe muito gratificante a atenção que lhe dispensaram e o aplauso tão caloroso do público presente. […] De regresso ao lar onde vivia, ainda teve a pequena vaidade de exibir com orgulho o seu prémio aos companheiros e funcionárias. Menos de um mês depois falecia. No final da sua longa vida, declarava-se feliz pela vida que vivera, pela família que a continuaria, e pela obra que realizara. Obra essa na qual se destaca a produção de azulejos, cujo “ressuscitar” para a arquitectura e para a arte contemporânea, é hoje um valor nacional indiscutível, se deve em boa parte, à sua acção, nos meados do século XX.[…]
Produziu, ainda, em azulejo a decoração do aeroporto de Luanda, de que não consegui encontrar fotografias.