O Metropolitano de Lisboa foi inaugurado em 29 de Dezembro de 1959. Nele Maria Keil deixou uma das maiores contribuições.Com formas geométricas e uso de muita cor, as paredes dos seus corredores, cujo destino era ficarem da cor do cimento, encheram-se da beleza que ainda hoje podemos apreciar.
Tudo começou nas conversas em casa e da não resignação do arquitecto Francisco Keil do Amaral, seu marido e encarregado da arquitectura do metropolitano, em visualizar o futuro das estações tal como o Estado as projectava. E Maria entusiasmou-se, “por amor” como afirmava, trabalhou sem contrapartidas económicas para bem do seu país.
Com a construção dos túneis encontraram-se vestígios da cidade romana, moura e da existente antes do terramoto de 1755, agora expostas no Museu da Cidade. Este facto inspirou Maria Keil, reavivando os motivos árabes, a utilização da técnica corda-seca (técnica predominante na azulejaria do final do século XV e início do XVI, com separação dos vidrados coloridos através de um sulco pouco pronunciado, preenchido com matéria gorda, evitando que os pigmentos se misturem durante a esmaltagem e cozedura) evocando as construções geométricas mudéjares (em especial na estação do Rossio).
Por ordem de Oliveira Salazar e do Conselho de Administração do Metro da altura, os azulejos não podiam ser figurativos, daí a necessidade de se optar pelo abstracto. Em 2009, Maria voltou a trabalhar na extensão da estação de S. Sebastião (linha Vermelha), para a qual fizera os primeiros painéis, em 1959. A criação artística desta estação foi um dos últimos trabalhos de Maria Keil, constituindo parte das 21 intervenções desta artista na rede de Metro de Lisboa. Isto depois da muita tristeza pela forma como não foi tida nem achada aquando de modificações nalgumas estações, que levaram à destruição de partes da sua obra…
Mas voltemos aos anos 50. Os azulejos foram fabricados na fábrica de cerâmica “Viúva Lamego” (onde tenho memórias de a acompanhar e de comer bolas de Berlim pelo caminho…), tendo o Metropolitano pago unicamente a matéria prima e não a “criação” da obra. Dizia Maria: “A fábrica é que me pagou como se paga a um operário. Apanhei pancada de toda a gente. ‘Ó menina, isso não se faz. Uma pintora não se rebaixa a isso’.
Paulo Henriques, director do Museu Nacional do Azulejo, no catálogo da exposição “A Arte de Maria Keil”, 2007, Barreiro, afirma: “Compreendeu Maria Keil que desenhar azulejos não era só inventar motivos para decorar uma placa cerâmica quadrada, mas antes desenhar/inscrever movimentos e sensações nos espaços construídos que se revestiam com o luxo singular dos revestimentos cerâmicos, ricos de vibração gráfica, cor e brilho material. Daí que olhar para os projectos de Maria Keil para azulejos seja uma aprendizagem sobe o desenho mas também sobre o modo de inscrever esse desenho nos espaços habitados e vividos diariamente por milhares de pessoas, expressão efectiva de Arte para o público”




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