Convidado pelos organizadores da antologia poética VIETNAME (Carlos Loures e Manuel Simões), António Ramos Rosa participou com este poema inédito.
PERANTE UM ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS DA GUERRA DO VIETNAME
Cada pedra é um não
Não posso converter este não num sim.
Que o não de cada pedra em cada mão seja ainda mais não.
E quando eu diga:vi, vi,
não, ainda não, é preciso deter ainda mais o olhar. Não.
Inutlmente embora, não desvio a face.
Quero transformar o meu soluço em pedra, em pedra.
Quero não esquecer o que talvez irremediavelmente esqueça daqui a um momento.
Não. Antes que o esqueça, que este Não se transforme em pedra no meu olhar,
na minha mão,
para que algo em mim nunca esqueça
e que aqui e agora eu junte a minha mão
às outras mãos
ligadas pelo mesmo não.
Que o não de cada pedra em cada mão seja ainda mais Não.
(VIETNAME antologia poética, Nova Realidade, Tomar, Maio de 1970)
