HIROXIMA E VIETNAME: MEMÓRIA POÉTICA E CONSCIÊNCIA ÉTICA* -– por Manuel Simões

 Hoje tem a palavra Manuel Simões que, num capítulo do seu livro – Tempo com Espectador – Ensaios de Literatura Portuguesa – nos fala da Nova Realidade, um projecto que, com Júlio Estudante e comigo, desenvolveu. Refere-se particularmente às antologias sobre Hiroxima e sobre o Vietname, nas quais publicámos depoimentos de poetas portugueses. CL

Em meados da década de sessenta, o projecto da colecção “Nova Realidade” nasceu como exigência de dar voz ao pulsar alternativo que se pressentia na intellighenzia portuguesa que, por sua vez, já não se sentia representada pelo discurso literário do neo-realismo, mas sem que a alternância recaísse num pathos utópico, quer dizer, numa literatura de esperança abstracta. Embora fosse um desideratum implícito, sem qualquer manifesto de grupo, o projecto tendia para uma literatura que se devia ler como negação dum cronótopo estático e, por consequência, como movimento impedidor de entropias gnoseológicas, o que envolvia igualmente o imobilismo ideológico. De certo modo o grupo de “Nova Realidade” procurava reformular uma perspectiva crítico-histórica da obra artística, à semelhança do que acontecia em Itália com Galvano della Volpe – e não obstante não existisse então qualquer ligação a não ser de carácter homológico – , o qual, já no prefácio à primeira edição de Critica del gusto, se propunha proceder à reparação da “negligência” do “lado formal” da “origem” das “representações ideológicas”. O estudioso não nega que a sua proposta de análise contempla o aspecto semântico (linguístico) da poesia e da arte em geral mas sem esquecer a “álgebra” linguística e o desenvolvimento crescente da teoria linguística, que utilizou prevalentemente (e na sua substância) para assegurar as bases semânticas do produto artístico em termos de Semiótica estética geral[1].

É claro que precedentemente ao aparecimento de “NR” (1966), houve nessa década sinais significativos de investigação em torno do discurso, como os anunciados pelo grupo de Poesia 61, cujos grandes animadores (Fiama Hasse Pais Brandão e Gastão Cruz) aparecem entre os organizadores de uma importante publicação como a Antologia de Poesia Universitária (1964), surgida no âmbito das Reuniões Inter-Culturais das Associações de Estudantes de Lisboa e que permitiu, no dizer dos subscritores da “nota prévia”, “um contacto relativamente extenso com algumas das vias mais representativas da nova poesia portuguesa”[2]. Segundo os mesmos organizadores, a antologia revela ainda “uma nítida predominância de concepções realistas de poesia”[3] e obedeceu a um critério selectivo que teve em conta somente a qualidade dos poemas sem considerar a respectiva orientação estética ou ideológica. E são peremptórios: a Antologia”é uma panorâmica, não um manifesto”[4], até porque não obedece ao novo cânone que considera a palavra como entidade “autónoma, produtora da realidade e não núcleo dela” (Gastão Cruz), ou às novas propostas em que a linguagem deixa de ser o reflexo de uma consciência que a precede mas sim a matéria primordial (Eduardo Prado Coelho). Basta pensar, por exemplo, no magnífico poema de Fiama Hasse Pais Brandão, “Barcas Novas” (depois incluído no seu livro com o mesmo título, Lisboa, Ulisseia, 1967), glosa de uma famosa cantiga d’amor do poeta medieval Joham Zorro, onde a poetisa, partindo da estrutura paralelística do texto de partida, ensaia com sucesso um novo discurso sem perder de vista a conotação ideológica: “Barcas novas são mandadas/ sobre o mar com suas armas// Não lavram terra com elas/ os homens que levam guerra/(…) Em Lisboa sobre o mar/ armas novas são mandadas” (p.72). “Barcas Novas” é um dos primeiros textos poéticos de denúncia da guerra colonial. E o próprio Gastão Cruz, que adere por inteiro à teorização de António Ramos Rosa (Poesia Liberdade Livre, de 1962) propugnadora da “aventura da pureza poética” ou do que no poema funciona como “especificamente poético”, publica na Antologia o poema “Não cantas ceifeira”, construção a partir de um segmento textual do romance Rumor Branco, de Almeida Faria, em que a linguagem procura organizar, em termos de criação poética, a matéria elaborada pela “consciência” a que atrás se aludiu: “Não cantas ceifeira/(…) roubaram-te o trigo/ que tinhas ceifado/ tu quem roubarás/ alentejo é doutros/ quem o gritará” (p. 90).

Tentando superar esta dicotomia, “Nova Realidade” propôs-se fazer interagir, desde o início – a primeira recolha das canções de José Afonso, o que significava o reconhecimento da autonomia poética dos textos – a consciência ética com a exigência estética. E é neste sentido que emerge o projecto da antologia de poemas Hiroxima, “depoimentos de poetas portugueses sobre o flagelo atómico, no 20°. aniversário da destruição de Hiroxima e de Nagasáqui” (Tomar, 1967), com coordenação e prefácio de Carlos Loures e Manuel Simões. Globalmente, a colectânea revela a poesia de uma memória preenchida e humilhada por imagens de inaudito espanto; que tenta salvaguardar das cinzas atómicas o protesto contra o horror, o massacre, o genocídio a que o mundo assistira impotente; e que com a arma da palavra assume a memória da humanidade que perplexamente se interroga: “Porque fez tanto escuro, em Hiroxima, no dia 6 de Agosto de 1945? Porquê?”.

Diz-se no “Prefácio” à antologia: “Numa altura (…) em que as hiroximas se estendem da África à Ásia (…) o nosso silêncio responsabilizar-nos-ia perante o julgamento futuro das épocas de crise e sua explicação histórica”[5]. E convém referir ainda, como também se sublinha no mesmo texto, que os poetas incluídos “transcendem a posição de passivos antologiados; muito ao contrário, pela sua aquiescência a figurarem na presente antologia, eles interferem e depõem activamente neste julgamento implacável”[6]. E que o critério de coordenação se baseou no valor global da palavra enquanto signo linguístico, subscrevendo a posição de Jorge Semprun quando este defende que a investigação diz respeito, antes de mais, aos aspectos formais: “O conteúdo, em si, não é objecto de investigação: é-nos imposto – ou pelo mundo, ou pelas nossas ideias, nossas obsessões pessoais a propósito do mundo”[7].

Dos trinta poetas aqui representados, quase todos publicam textos inéditos, quer dizer, escritos para a antologia com a perfeita consciência de participarem num acto colectivo. Curiosamente, são os autores já então consagrados (Egito Gonçalves, Manuel Alegre, por exemplo) os que já precedentemente haviam divulgado as suas composições sobre o tema, o que demonstra a atenção e sensibilidade destes poetas relativamente aos mecanismos perversos da guerra em geral e da explosão atómica em particular. Mas outros poetas antologiados viriam a afirmar-se na literatura portuguesa contemporânea, como Casimiro de Brito, João Rui de Sousa ou Orlando Neves; e Rui Mendes, poeta ainda hoje inédito em volume, mas ligado à revista “Êxodo”, dos anos 60, de que foi grande animador com João Vário e Luís Serrano – produz três belíssimos poemas (“Elegia”; “Coro das crianças de Hiroxima”; “Coro dos aviadores, sobrevoando Hiroxima”), aos quais com certo pudor cautelativo deu o título “Cantos circunstanciais de Hiroxima”, antecipando-se talvez ao que os críticos da chamada “poesia pura” designariam, com conotação negativa, por “poesia de circunstância”. Contra esta objecção ou preconceito que não tolera o “poema chamado de encomenda” já se referiu João Cabral de Melo Neto numa sua famosa conferência, defendendo “que um poeta se imponha um tema: cristalize seu poema a partir de um assunto ou de uma tese”[1].

A antologia revela ainda uma tonalidade unívoca, certamente porque o discurso focaliza um tema comum, embora evidencie diferentes linguagens poéticas, como não podia deixar de suceder. O tecido poético, todavia, baseia-se quase sempre nas terríveis e dramáticas imagens divulgadas em todo o mundo e que impressionaram a memória dos Autores como se se tratasse de um negativo fotográfico que desenvolvesse depois a expansão textual em termos de criação literária. Não raro Hiroxima, como “ciência de matar”, é associada aos métodos hitlerianos (António Cabral, Casimiro de Brito) e a indignidade sucessiva das intervenções armadas noutros pontos do globo (Carlos Loures, Eduardo Guerra Carneiro), estabelecendo uma dialéctica entre duas situações, ambas insustentáveis ao nível do comportamento civilizacional digno desse nome. Trata-se de um discurso que implicitamente envolve a guerra colonial em acto desde 1961, tornada explícita pela inclusão do poema de Manuel Alegre, “Nanbuangongo, meu amor” (Praça da Canção, 1964), em que o sujeito dialoga com o poeta Fernando Assis Pacheco, um autor que precisamente produziu alguns textos eloquentes do que se pode chamar literatura da guerra colonial[2]. Transcreve-se do poema de Manuel Alegre:

Falavas de Hiroxima, tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nanbuangongo existe
em cada homem urn rio que não corre.
… … … … … … … … … … … …
É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes desse tempo longo longo
tempo exactamente em cima
do nosso tempo ai tempo onde a palavra rima
com a morte em Nanbuangongo[3].

No caso presente são postos em confronto dois acontecimentos trágicos (Nanbuangongo, recorde-se, evoca um dos massacres mais atrozes que o exército português efectuou em Angola) através dum tecido poético cujo mecanismo tem origem na memória icónica, presente aliás, como se viu, em toda a colectânea. E igual mecanismo é observado em Vietname, a outra antologia publicada por “Nova Realidade”[4], tal como se pode ler no texto preliminar: “O mundo tem a guerra nos olhos, uma carga emotiva donde irrompem as palavras, os vocábulos rasgando o tecido da afronta e da ruína. Desata-se a memória e o poeta revive as tarefas de resistir. O cortejo dos mortos passa sob o seu espanto. E o seu verbo não esconde a acusação contra o gesto que envergonha a humanidade”[5]. A iconografia da guerra tem, pois, um peso específico e essencial na textura dos poemas, de que é exemplo paradigmático a composição de António Ramos Rosa, cujo título é só por si indicador explícito do processo escritural (“Perante um álbum de fotografias da guerra do Vietname”), o que pressupõe um conjunto de imagens que se transformam em memória poética. E é a este nível que se organiza o exercício poético de outros autores, como, por exemplo: “Acróstico”, de António Rebordão Navarro, com imagens sugeridas por uma fotografia; “Sob o homem”, de Fiama Hasse Pais Brandão, a partir duma notícia dos jornais; ou “O homem arrastado”, de Sidónio Muralha, em que a expansão textual principia com a ironia trágica duma fotografia que “ganhou um primeiro prémio”: “É preciso ver/ ver esta fotografia/ olhar bem a inutilidade desse gesto/ de arrastar um cadáver atrás de um carro blindado/ de braços inertes e de pés atados” (p. 99).

Se já em Hiroxima era altíssima a percentagem dos poemas inéditos, em Vietname apenas 3 dos 44 poetas tinham publicado precedentemente as suas composições (Alberto Costa, Egito Gonçalves, Fernando Assis Pacheco), o que determina o elevado grau de participação activa dos Autores. O caso de Egito Gonçalves mostra claramente a sua adesão participativa, visto que tendo o seu poema sido anteriormente incluído numa antologia internacional de poesia sobre o Vietname (Ord om Vietnam), organizado na Dinamarca, quis assinalar a sua presença com um segundo texto (“Também aqui Vietname”) escrito “de encomenda” para a antologia.
________________________________________
*Publicado anteriormente in Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani, Pisa-Roma, Istituti Editoriali e Poligrafici Internazionali, III – 2001, pp.87-91. [1] Cf. G. Della Volpe, Critica del gusto, terza ed. riveduta e accresciuta, Milano, Feltrinelli, 1972 (1ª. ed.1960), pp. IX-XI. E ainda o estudo fundamental de Ignazio Ambrogio, Ideologie e terniche letterarie, 2ª. ed., Roma, Ed. Riuniti, 1974, pp. 183-208. [2] Da “Nota Prévia’ a Antologia de Poesia Universitária, Lisboa, Portugália, 1964, p. 9. Por nova os coordenadores.entendiam a poesia.produzida depois de 1953, ano em que terminou a publicação da revista Árvore, marco significativo da poesia portuguesa contemporânea (Cf. IbIdem, p. 9) [3] Ibidem, p. 10. [4] Ibidem, p .11. [5] Hiroxima, antologia de poemas, Tomar, Nova Realidade, 1967, pp. 15-16. [6] Ibidem, p. 17. [7] Ibidem, p. 16. [8] João Cabral de Melo Neto, Poesia e composição. A Inspiração e o Trabalho de Arte (conferência pronunciada na Biblioteca de S. Paulo, em 13-11-52, no curso de Poética), Coimbra, Fenda Edições, 1982, p. 11. [9] A este respeito veja-se o excelente estudo de Fernando J .B. Martinho, A confissão e a guerra: uma leitura de “Katalabanza, Quilolo e Volta”, in Dalle armi ai garofani Studi sulla letteratura delta guerra coloniale, a cura di Manuel G. Simões e Roberto Vecchi, Roma, Bulzoni, 1995, pp. 21-28. [10] Hiroxima, antologia cit., pp. 67-68. 349 Vietname. Depoimentos de poetas portugueses sobre a agressão norte-americana ao Vietname, coordenação e prefácio de Carlos Loures e Manuel Simões, Tomar, Nova Realidade, 1970. 350 Ibidem, p. 9.

(Continua)

Leave a Reply