(Conclusão)
Mais ainda do que em Hiroxima, a nova antologia, embora um tanto veladamente (mas trata-se de textos poéticos), oferece não poucos momentos de reflexão sobre a incomodidade que acompanha o sujeito neste “exemplar espectáculo/ onde somos a bala e o corpo baleado e/ lavoura do crime e o crime/ com raiva gritado”, como se lê no magnifico poema “Vietname: outra maneira”, de Casimiro de Brito (pp. 37-38). E não raro o discurso sobre o Vietname evoca outra guerra, mais próxima e muitas vezes sentida na própria pele: “Soldado me fizeram// E eu fiz da espingarda negra/ Uma canção de paz/ Que a morte não levou” (César Oliveira, “O amor e a guerra”, p. 39); ou aproxima duas geografias distantes mas unidas pela solidariedade e pela resistência à opressão (Manuel Alegre, “Vietname”, p. 78):
Caem lá longe, mas amanhã,
amanhã podem cair aqui
as bombas que caem no Vietname.
Caem lá longe mas estão aqui
as bombas que caem no Vietname.
Porque é por ti, porque é por ti
que os homens morrem no Vietname.
É este o sentido de “O Vietname a Ocidente”, de Orlando Cardoso, que vitupera os “discursos/ defendendo a guerra/ civilizadora e santa” e a “crueldade heróica/ dos heróis inúteis” (p. 86); ou ainda de “Os Aviões”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, poema construído a partir do efeito da passagem dos aviões em duas dimensões espaciais contrastantes: num aqui (“sossego branco dos muros onde moro”) e “noutro lugar noutro silêncio”, lugar de morte e de desencontro do equilíbrio programado pela harmonia do mundo. A um “aqui” em que” depressa passa o pássaro vibrante/ De novo tomba a lua sobre as flores/ E o cipreste contempla o seu próprio silêncio” (p. 102) corresponde a vertigem da crueldade desfigurando o homem e o direito a sê-lo inteiramente:
Porém noutro lugar noutro silêncio
Bandos passaram em bandos de terror
E a morte nasceu dos ovos que deixaram
A lua não encontrou depois as flores
Ninguém morava dentro dos muros brancos
E a noite em vão buscava o seu cipreste (p. 102).
Perante tão grande humilhação da humanidade, não será surpreendente – já o disseram os coordenadores no citado prefácio – verificar a extraordinária motivação literária da guerra do Vietname, numa repercussão mundial de que todas as literaturas deram testemunho. Na já citada conferência de 1952, analisando a teoria da composição poética, já João Cabral de Melo Neto se refere ao grande preconceito “contra o poeta que se impõe um tema, contra o poeta para quem cantar tem uma utilidade e para quem cabe a essa utilidade determinar o canto”[1]. Para os Autores das duas antologias a “utilidade” nunca é vista como mutilação mas como identificação; e isto sem perder de vista a específica expressão literária do discurso poético, na sua plurifuncionalidade de acto de comunicação e de fruição estética.
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[1] J.C.Melo Neto, op. at., p. 11. Acrescenta ainda o grande poeta: “Os temas que eles costumam desprezar como indignos são temas que ocuparam alguns dos poetas mais altos que já existiram – os temas da vida dos homens” (Ibidem, p. 12).

É por isto que eu gosto do Chiado
do dito proscrito da polémica estátua
do rasto subindo e descendo
as ruas que o seu nome engoliu
Diz-se que nem ao rio se chegava
para deixar humores e pestilência
Ria e debochava de freiras e putas
de marqueses e marujos
Nem sei onde dormia
Foi violado e criado entre casas caídas
e rastejou entre ruas infectas
Há sobre todas as tragédias um liso
pano de memórias rotas
e às vezes nos buracos uns poetas
Maria Laura Madeira