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DOIS GRANDES POETAS ASSASSINADOS – GARCIA LORCA EM GRANADA, SAYD MAJROUH EM PESHWAR, por Clara Castilho

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Os poetas são, por norma, seres pacíficos. O adjectivo poeta não se aplica necessariamente a quem escreve poemas, mas a indivíduos idealistas, sonhadores. O substantivo designa o escritor, o literato, que escreve poesia – e a poesia, por vezes é, como a cantiga, uma arma. Uma arma contra a tirania. Clara Castilho traz-nos hoje Sayd Majrouh, um poeta cuja voz era incómoda e foi, por isso, silenciada. Como a de García Lorca.

 “Nascido em 1928, foi assassinado em 1988 em Peshwar, no Paquistão. Doutor em Filosofia pela Universidade de Montpellier, decano da faculdade de Letras de Kabul, foi também governador da província de Kapiça. Após a invasão soviética do Afeganistão, exilou-se no Paquistão onde fundou o Centro Afegão de Informação, que difundiu no mundo inteiro reportagens e análises sobre a resistência. Autor de uma imensa epopeia – Ego-Monstre – que constitui o maior conjunto poético da literatura afegã do século XX, foi herdeiro literário de Omar Khayyâm, de Sanai, de Rûmi, mas também de Montaigne e Diderot. A presente edição é a compilação dos textos recolhidos e traduzidos por Majrouh e posteriormente enviados para França. A versão portuguesa é da autoria de Ana Hatherly .”

É assim que um livro perturbante é apresentado: “A voz secreta das mulheres afegãs – o suicídio e o canto”.

Noutra ocasião falarei sobre as mulheres afegãs e os seus landay’s . Hoje quero aqui deixar uma nota sobre este homem que, ao querer a liberdade, queria-a também para as mulheres, daí ter coligido o que elas deixavam como grito de revolta pela sua vida de escravas e ter arranjado forma de que a ditadura não apagasse esses vestígios. Da sua confiança em amigos franceses e na liberdade do ocidente, assim nos chegam estes testemunhos, pela mão de Ana Hatherly, num livro já editado em 2005.

Ainda no livro, André Verter, um dos “mensageiros”, explica como conheceu Sayd Majrouh, e com ele “conspirou”. Na sua morte, escreveu no “Le Monde”:

“ O Afeganistão acaba de perder o seu maior poeta. Para dar uma ideia da dimensão do crime é necessário evocar o destino de Frederico Garcia Lorca, vítima, como Sayd Bahodine Majrouh, das mesmas forças obtusas. Ontem, um pelotão de execução ao amanhecer em Granada. Hoje, matadores programados, em Peshaawar, no Paquistão.

[…] O seu estudo consagrado à poesia popular das mulheres pashtun prova que ele era bem um “homem de luzes” obedecendo à dupla herança os sufis e dos filósofos, um homem lutando, certamente, pela independência do Afeganistão, mas também por um novo regime que, no futuro, respeite as liberdades individuais.”

André Verter fala-nos ainda sobre a obra maior de Majrouh – “Ego-Monstro: o riso dos amantes” que penso não ter tradução em português. Considera que “devia-se prescrever a sua leitura em todas as igrejas, mesquitas, escolas ou casernas, em todas as oficinas, em todos os círculos do poder. Estas páginas encerram, com efeito, o mais poderoso, o mais tonificante antídoto contra a tirania, o obscurantismo e cada um dos seus subterfúgios renascentes. Aqui se leva a cabo a implacável descodificação dos mecanismos de terror, a revelação das manipulações, das cobardias, das renúncias.”

Ficamos com água na boca. Para quando a tradução e edição?

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