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NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 116 – por Manuela Degerine

Sobreviver

Represento agora, para as duas profissionais, uma figura cuja passagem não implica a interrupção da conversa, por consequência oiço a mais gorda e mais nova.

– Eu, mesmo zangada com uma pessoa, se vir que ela precisa de ajuda, sou incapaz de não fazer nada…

Replica a mais magra e mais velha.

– Ah, eu cá também, não sou capaz disso! Mesmo que me tenham feito mal. Saber alguém com dificuldades, poder ajudar e não o fazer…

Um lugar-comum repetido entre vizinhas, duas boas pessoas que, do ponto de vista verbal, seguem a ética cristã: o amor do próximo. Caritas, caritatis. A outra face. Devem rezar, devem ir à missa – exigirão o uso de preservativo?

Eu reitero as interrogações. Que misérias, que desgraças, que ignorâncias, que ingenuidades, que brutalidades, que desequilíbrios, que indiferenças empurraram para a rua cada uma destas senhoras? Trabalham para os filhos? Para algum homem? Sofrem violências dos clientes? Sofrem violências do proxeneta? Encontram-se seropositivas? Surpreendo-as, uma ou outra vez, em negociação; e os fregueses não são mais feios do que elas. Parecem praticar o ofício numa rotina de funcionárias, respeitam os horários de trabalho, acolhem os clientes no calmo desapego, na morna dignidade com que lavariam escadas. Talvez prefiram, na sua idade, com o seu peso, aviar um ou dois clientes por dia em vez de – por exemplo – passar roupa a ferro: de pé. Tal negócio torna-se aqui – não o será quase sempre? – um avatar do desemprego.

A prostituição esconde-se em espaços que a maioria das pessoas não frequenta: ora quem não a vê não a debate. Importa que na rádio, na televisão, em cartazes, nos magazines, em campanhas, em reportagens, na Internet se mostre que não há prostituição feliz pois, mesmo as mulheres que não são drogadas, espoliadas, escravizadas, correm sempre o risco de serem agredidas e, sobretudo, de serem contaminadas pelos clientes. E vice-versa: as mulheres da vida podem revelar-se agentes da morte. Contou-me um médico do SNS que surgem, com alguma frequência, mulheres de meios sociais modestos, as quais só tiveram relações sexuais com o marido e, aos cinquenta, sessenta, setenta anos, se descobrem seropositivas por este recorrer a prostitutas.

Há muitas formas de violência e – como vemos – algumas são mudas, escondidas, clandestinas. Que fazer para as prevenir? Educar as raparigas sempre foi a melhor estratégia: ensiná-las a pensar, a ser vigilantes, a ser autónomas, a ser responsáveis. Mas todos sabemos que não chega… Acrescentemos sempre a informação pois, no que diz respeito à droga, à violência e à prostituição, com frequência inseparáveis, o silêncio protege quem delas retira os maiores benefícios. Não costumam ser as mulheres…

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