NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – II Série – 80 – por Manuela Degerine

Poeta

Pouco sei deste meu compatriota. Onde nasceu? Em que ano? Que escolas frequentou? A quantos empregos se candidatou? (Terão admitido a Vera Pereira?) Como outros portugueses, busca a sorte aqui e além. Até em Marrocos. E pelo Oriente. Nas cartas confessa que mandou enforcar as esperanças: “por falsificadoras de moeda”. Queixa-se das “más línguas” e da “pura inveja”. A aventura não lhe correu como desejava: não é dos que abatem a árvore das patacas. Regressou a Lisboa com o rosto magro, o coração vazio, as algibeiras desesperadas e o talento que ainda lhe ignoram. Num poema longo e megalómano, que virá ou não a concluir, indigna-se com a hipocrisia de quem nos governa.

 Vê que aqueles que devem à pobreza                                                                                                                                                                                         

Amor divino, e ao povo caridade,

Amam somente mandos e riqueza,

Simulando justiça e integridade.

Da feia tirania e de aspereza

Fazem direito e vã severidade.

Leis em favor do Rei se estabelecem;

As em favor do povo só perecem.

 Ignoro a que leis e mandos se refere o Poeta, creio que falará da supressão de escolas, tribunais, hospitais e centros de saúde, da criação de portagens em auto-estradas sem portagem, da descida dos salários, da subida dos impostos, da falta de palavra dos nossos governantes… Deste Reino dos Cortes. Do Portugal PSP (Podia Ser Pior).

Mas os séculos passarão, os ministros suceder-se-ão… Quem viver daqui por quatrocentos e trinta anos há de sem dúvida rir-se destes nossos queixumes.

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