Concebeu sem pecado, isto é, sem prazer, criou um filho que, por desígnio do Pai, viria a morrer na cruz – e não se revoltou. Durante séculos as mulheres identificaram-se com a Senhora das Dores, com a Senhora da Piedade, com a Senhora do Pranto… Quando alguma se insurgia, a família, os vizinhos, a Igreja e o Estado obrigavam-nas a repensar, senão havia a miséria, o convento, a prostituição… E a morte. A família representava a unidade mínima da sociedade por consequência, se uma mulher fugia ou era excluída da sua, ficava condenada à marginalidade. Era mãe solteira. Era mulher pública. Era feiticeira. Sabemos como as trataram.
Esta sociedade modificou-se, porém muito lentamente. Emergiu a vida privada. Emergiu o indivíduo com a sua liberdade. Emergiram os direitos do homem. Era impossível não emergirem os direitos da mulher… Claro: não de imediato. Olympe de Gouges redigiu a Declaração Universal dos Direitos da Mulher e da Cidadã; foi guilhotinada pela sua ação política. A Marquesa de Alorna constituiu um fenómeno ímpar na sociedade portuguesa, tal como George Sand, mais tarde, na sociedade francesa; o seu estatuto, uma marquesa, a outra baronesa, descendente do rei da Polónia, ambas com bens que garantiam independência, tornou possível esta singularidade.
A partir da segunda metade do século XX, as famílias passaram a enviar as filhas para a escola e, com a emigração, a industrialização, a consequente falta de mão-de-obra, as mulheres acederam ao mercado de trabalho. Agora, em 2013, há duas ou três gerações que as raparigas vivem, quando muito, com o pai e a mãe, mas foram criadas – não pela mãe, não pelo pai, que trabalham – por um conjunto de adultos que vão da ama aos avós, educadores e professores.
Ilustração: quadro de Dorindo Carvalho
Oiço gente muito virtuosa condenar quem põe os pais em lares de terceira idade. Ora as servas da família, que antes cuidavam dos idosos, têm agora uma atividade profissional e, ainda que não a tenham no momento presente, por estarem desempregadas, recusam um papel que implica renunciar à vida na qual durante vinte, trinta anos elas porfiaram – a sua. Isto não significa que não amem, não respeitem os pais, os tios, os avós, não queiram o melhor para eles, mas que a estrutura familiar se alterou, as exigências de cada um se modificaram, as figuras da dor e da renúncia deixaram de nos atrair. Quando os pais se tornam dependentes há decénios que os filhos com eles não coabitam, é normal que não tenham os mesmos horários, as mesmas ocupações, a mesma alimentação, as mesmas prioridades; e nem as casas em que vivem correspondem ao quotidiano de um deficiente. Embora alguns não o queiram ver, a sociedade mudou, não é portanto hoje possível, com a nossa exigência de liberdade, esperar que as mulheres se recolham com a mãe – por exemplo – nesta variante do eremitério; quanto aos homens, que não sofrem a mesma pressão social, que tão pouco participam nas tarefas domésticas, sabemos que não correm este risco. A indignação costuma aliás dirigir-se às mulheres:
– O quê?! Os teus pais trataram de ti, não és capaz de tratar deles!
Só quem nunca cuidou de um idoso acamado é capaz de dizer tais disparates – são estes os virtuosos. Eu, por o ter feito, sei que constitui uma missão impossível: conduz à loucura. Quem decide ser pai, ser mãe, escolheu as fraldas e biberões, sonhou com eles, integrou-os no projeto de vida; ora ninguém escolhe ter um pai com Alzheimer. O simples facto de a criança evoluir para a vida e o idoso para a morte torna impossível a comparação, pois quem trata de um idoso é exclusivamente – não restam forças para outras experiências – confrontado com o próprio fim; isto conduz no mínimo à depressão. Mas o essencial é termos hoje expetativas quanto à qualidade de vida dos idosos – que em casa não podemos garantir. Não basta lavar, vestir, alimentar, mudar as fraldas, é necessário ocupar, animar, estimular, retardar as dificuldades do idoso, suscitar nele o prazer de estar vivo, evitar que o nosso pai se sinta um peso… Em contrapartida existem muitos lares que, por serem construídos para isto, por disporem de pessoal diverso, formado, competente, especializado, garantem uma excelente qualidade de vida a quem lá reside; resta uma margem muito vasta para os familiares continuarem a representar o seu papel. E muitas famílias não só renunciam a outras despesas para pagar os estudos dos filhos, também se privam de bens necessários para poderem pagar os lares dos pais.
O nosso fim de vida passar-se-á portanto num lar terceira idade. No que me diz respeito: acho muito bem. Importa exigirmos que estas instituições, públicas ou privadas, nos permitam uma velhice digna, serena, equilibrada. Não fomos instruídos em casa, andámos na escola, no liceu, na universidade, logo na velhice recorreremos igualmente a profissionais especializados. Qual é o problema?