O HOMEM GRÁVIDO – por Clara Castilho

 

A ideia de um homem grávido é já antiga… Mito transformado em historieta e depois quase em anedota? Anedota que hoje em dia já não faz sentido pela imposição das modificações da actual ciência e dos novos pensamentos sociais.

 

Segundo Roberto Zapperi, no seu livro “O homem grávido”, esta é um imagem de luta entre sexos pelo poder, até entre classes, pois é sempre uma historia entre um dono e um subordinado. Liga-o à história do poder na idade média, na sociedade feudal e cristã desde o séc. 11 ao 19. Mas encontra-o na antiguidade greco-romana e também em contos africanos, numa das histórias das “Mil e uma noites”. E Levi-Strauss, relatou uma lenda dos índios pawenee da América do norte com a mesma temática.

 

Relaciona-o à Bíblia, à forma como é apresentado o nascimento de Eva, a partir da costela de Adão.

 

 Lorenzo Maitani, na catedral de Orviero

 que substituiu o nascimento costal.

 

 

Para a Igreja católica a mulher procria as crianças e o homem cria os objectos e as obras: São Paulo (Ephesiens, 5, 21-14) diz: “sejam submissos uns aos outros e crentes do Senhor. Que as mulheres o sejam aos seus maridos como ao Senhor: com efeito, o marido é o chefe de sua mulher, como Cristo é o chefe da Igreja”. Nessa altura cria-se que só o homem tinha a semente reprodutora e esta só poderia ter efeito se vier de uma posição em que o homem está por cima da mulher. Se o acto sexual ocorrer na posição inversa (considerada anti-natural), então o homem ficaria grávido….

 

 

As histórias que encontrou são sobretudo de padres que ficam grávidos, facto que daria matéria para outro tipo de análise.

 

Zapperi  afirma “O QUE A NATUREZA RECUSOU, A IMAGINAÇÃO CRIOU”.

 

 

 

 

 E agora? A ideia de que as crianças nasciam de um ventre de uma  mulher  parece estar posta em causa. Apareceram notícias de um ‘homem grávido‘ que deu à luz uma criança e que ainda voltou a repetir a proeza mais duas vezes. Isto é possível pelo facto de esse agora homem ter nascido mulher. Foi o primeiro transexual (o havaiano Thomas Beatie). E dizem as notícias que, tal como as mulheres não conseguiu ver-se livre das estrias! Thomas, declarado legalmente homem, tendo feito uma mastectomia dupla, manteve os órgãos reprodutivos femininos intactos. Deixou de tomar as hormonas masculinas para poder engravidar. Não pesquisei mais, mas a sua esposa deveria ter uma problema que a impedia de engravidar, tendo então o pai aproveitado este facto para poderem formar uma família, através de uma inseminação artificial. Fico com curiosidade em saber qual será o desenvolvimento psíquico destas crianças.

 

Existe um outro caso em que um homem transporta dentro de si um “fecto”- o gémeo parasita ou “fectus in

 

 

 fetu”. Trata-se de uma anomalia do desenvolvimento em que uma massa de tecido semelhante a um feto se forma dentro de um corpo. Na maioria dos casos, o feto parasita fica na região abdominal, causando uma espécie de barriga que lembra a de uma mulher grávida. Calcula-se que poderá acontecer em 1 em 500.000 nascidos. A vida deste “fectus” é a semelhante a um tumor na medida  em que suas células permanecem viáveis por meio de actividade metabólica normal. Representa uma ameaça clara para o seu hospedeiro e não tem qualquer hipótese de vida fora dele. Pode aparecer quando ainda crianças ou quando  o ‘hospedeiro’ começa a aparentar problemas de saúde pelo alojamento do irmão ou irmã sem vida em seu corpo (como é o caso de Sanju Bhagat, um indiano de 36 anos)

 

Este fenómeno deu origem ao mito do homem “grávido”, referido em relatos já do século XVII.

 

Daqui a uns anos as brincadeiras dos papás e mamãs das crianças terão  certamente outras cambiantes…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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