MULHERES – A VIOLÊNCIA CONTINUA – 6 – por Rachel Gutiérrez

(Continuação)

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III – Raízes da dominação e da violência

Se a nossa cultura é greco-romana e cristã, se pertencemos a este Ocidente, que segundo Roger Garaudy “é um acidente”, e se “uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia”, como disse o nosso grande escritor e memorialista Gilberto Amado, é na Grécia clássica que devemos procurar o patriarcado triunfante, que ao longo de tantos séculos vem desfigurando a Mulher que tinha sido Deusa, encarnação da Primavera e da Fertilidade, a sagrada portadora e nutriz da Vida.

 Não precisamos recuar muito no tempo se quisermos compreender o que derrotou a Deusa, a fonte divina de vida e prazer. Até Homero, e para a grande Sappho, nossa matriz da poesia lírica,  era Afrodite a deusa do Amor. Mas na era clássica, “o sexo e o amor foram incorporados numa divindade masculina armada” – Eros ou Cupido, que aparece com uma espada ou uma flecha. Em  seus estudos multidisciplinares da História e dos   mitos, Riane Eisler aponta a coincidência entre esse acontecimento da esfera mitológica e a nova estrutura da sociedade, em que “o princípio primordial de sua organização é o medo e/ou a força”.  Alguns historiadores (homens) interpretam a dominação masculina, o espírito guerreiro, a verticalidade autoritária e a escravidão como “consequências inevitáveis” de uma “maior complexidade cultural e tecnológica”, ou como “o preço do progresso”, ou ainda como uma qualidade inerente ao processo civilizatório. Ora, já existem antropólogos e paleontólogos, homens e mulheres com suficiente isenção e liberdade imaginativa para entender que ao progresso material da falocracia correspondeu um fracasso e uma grande perda espiritual e emocional para a humanidade.

O mais poderoso dos deuses do Olimpo, Zeus, era um predador sexual que, quando se entediava entre as deusas, descia à terra para estuprar, sim, estuprar ninfas e pastoras. E na terra, “em frente à maioria das casas atenienses, havia uma estátua do deus Hermes com o pênis ereto”. A liberdade e a democracia gregas, sabemos bem, foram o apanágio de poucos homens numa sociedade escravocrata e extremamente misógina. Ao se referir às mulheres, como diz Eisler, um grego antigo podia se vangloriar assim: “Nós [homens atenienses] mantemos as heteras para o prazer, as concubinas para o cuidado diário do corpo e as esposas para a produção de filhos legítimos e o    cuidado da casa”. Diz ainda a pesquisadora que, quando os homens atenienses tinham relação com mulheres (ao invés de com rapazes) “para prazer sexual, escolhiam tê-la com escravas e prostitutas, ao invés de com as esposas, que eram excluídas não apenas da vida política, mas também da vida

social”. E a nem sempre bem compreendida homossexualidade da Grécia clássica não passou, na verdade, de pederastia, outra forma de dominação que não acontecia entre homens iguais, mas somente entre homens mais velhos e meninos totalmente submissos, que sofreriam rejeição “se tomassem a iniciativa de atrair o amante”! Além disso, a lei e os costumes atenienses “sancionavam o abuso sexual de meninas através do casamento, da prostituição infantil e do uso e abuso das pequenas escravas por seus donos, com frequência das maneiras mais cruéis”.

Roma

Na sociedade romana, igualmente cruel, sabe-se que um poder ditatorial cabia ao pater familias, o chefe da família, que, segundo Engels, em seu livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, é uma palavra derivada de fâmulo, escravo. Um romano com muitos escravos possuía uma família. E as mulheres, aparentemente mais livres do que as gregas, pois conquistavam a maioridade aos 25 anos, nem por isso deixavam de continuar subjugadas aos pais e aos maridos por toda a vida. O marido tinha o direito de espancar e até de matar a mulher que desobedecesse. Algumas mulheres, porém, as matronas, das classes superiores, detinham algum tipo de poder, mas não podiam nem votar nem exercer cargos públicos. Como na Grécia, os homens exploravam e abusavam sexualmente de suas escravas, e a violência sexual era considerada uma prerrogativa dos poderosos. Símbolos fálicos, como os obeliscos, também fazem parte da cultura romana, e em Pompeia, podem ser vistos falos eretos que permanecem guardando as casas em ruínas.

 Cristianismo

Jesus de Nazaré praticou a compaixão, a tolerância, a não violência e pregou o Amor. Salvou a adúltera do apedrejamento e uma “pecadora” foi quem lhe lavou e ungiu os pés na véspera de seu martírio. E não se lê nos textos dos Evangelhos que alguma mulher o tenha ofendido, traído ou negado. Nenhuma escarneceu dele durante a cruel Flagelação. Mas a Igreja secular apartou as mulheres e jamais permitiu que celebrassem a missa como os padres. Maria, Nossa Senhora, a mãe amantíssima de Jesus, passou a ser mais exaltada como Virgem do que como Mãe. São Paulo, que declarou que o celibato é superior ao casamento, recomendou às mulheres que se mantivessem caladas nos templos e cobrissem com véus as cabeças. A Igreja separou os homens das mulheres, preocupou-se obsessivamente com o sexto mandamento e culpabilizou o sexo como pecado. Em sua ideologia puritana e extremamente misógina, tudo se passa como se só os homens fossem filhos de Deus; as mulheres, filhas de Eva, encarnam a tentação, o pecado, o Mal.

 Agora, vamos dar um salto no tempo para ouvir uma norte-americana, negra, ex-escrava e analfabeta, mas que sabia a Bíblia de cor e havia trocado seu nome de batismo, Isabella van Wagener, por Sojourner Truth (aproximadamente “Peregrina da Verdade”), quando tomou a palavra, em Akron, Ohio, na Primeira Convenção Nacional pelos Direitos das Mulheres, em 1851.Sojourner disse:

Cristo não era mulher. Mas de onde veio Cristo? De Deus e de uma mulher. O homem não teve nada a ver com isso.

 E acrescentou: …Se Deus criou uma mulher (Eva) forte o suficiente para virar o mundo de cabeça para baixo, estas mulheres aqui deverão ser capazes de recolocar o mundo na posição certa!

 Apesar dos esforços das contemporâneas de Sojourner Truth e as sufragistas inglesas, muitas décadas ainda precisariam passar para que o mundo das mulheres começasse a mudar. Na era vitoriana do século XIX, as mulheres das classes altas, totalmente dependentes, eram pálidas donzelas, ou discretas matronas, apertadas em seus rijos espartilhos, tuteladas econômica e moralmente e sexualmente reprimidas. Enquanto isso, a consolidação da Revolução Industrial muito dependeu do trabalho de outras mulheres, as operárias que, de sol a sol ao lado dos homens, embora recebendo pagas sempre inferiores às deles, também eram pálidas, mas sua palidez era causada pela má alimentação, pelas noites maldormidas, pela vida de sacrifício e sem descanso.

(Continua)

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