Poema e música: Vinicius de Moraes
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP “Bossa Nova Mesmo”, Philips, 1960; CD “Lances de Vinicius 1”, Universal, 2001)
[instrumental]
Quando a luz dos olhos meus E a luz dos olhos teus Resolvem se encontrar Ai, que bom que isso é, meu Deus Que frio que me dá O encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus Resiste aos olhos meus Só p’ra me provocar Meu amor, juro por Deus Me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus Que a luz dos olhos meus Já não pode esperar Quero a luz dos olhos meus Na luz dos olhos teus Sem mais, larirurá
Pela luz dos olhos teus Eu acho, meu amor E só se pode achar Que a luz dos olhos meus Precisa se casar
[instrumental]
Meu amor, juro por Deus Que a luz dos olhos meus Já não pode esperar Quero a luz dos olhos meus Na luz dos olhos teus Sem mais, larirurá
Pela luz dos olhos teus Eu acho, meu amor E só se pode achar Que a luz dos olhos meus Precisa se casar
* Conjunto Óscar Castro Neves
Produção – Aloysio de Oliveira
TERNURA
Poema de Vinicius de Moraes (in “Novos Poemas”, Rio de Janeiro: José Olympio, 1938; “Antologia Poética”, Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 134-135)
Recitado pelo Autor* (in LP “Vinicius em Portugal”, Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)
Eu te peço perdão por te amar de repente Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentado Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente. E posso te dizer que o grande afecto que te deixo Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas Nem as misteriosas palavras dos véus da alma… É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias E só te pede que te repouses quieta, muito quieta E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.
* Produção – João Martins
Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969
EU SEI QUE VOU TE AMAR
Poemas: Vinicius de Moraes (em itálico “Soneto de Fidelidade”, 1939, in “Poemas, Sonetos e Baladas”, São Paulo: Edições Gavetas, 1946; “Antologia Poética”, Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 136-137)
Música: António Carlos Jobim
Intérpretes: Maria Creuza, Vinicius de Moraes* e Toquinho (in LP “Vinicius de Moraes en ‘La Fusa’ con Maria Creuza y Toquinho”, Phono Musical Argentina, 1970, reed. DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)
[instrumental]
Eu sei que vou te amar Por toda a minha vida eu vou te amar Em cada despedida eu vou te amar Desesperadamente Eu sei que vou te amar
E cada verso meu será p’ra te dizer Que eu sei que vou te amar Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar A cada ausência tua eu vou chorar Mas cada volta tua há-de apagar O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer A eterna desventura de viver À espera de viver ao lado teu Por toda a minha vida
De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei-de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.
Eu sei que vou sofrer A eterna desventura de viver À espera de viver ao lado teu Por toda a minha vida
* [Créditos gerais do disco:]
Toquinho – guitarra
Mario “Mojarra” Fernandez – contrabaixo
Enrique “Zurdo” Roizner – bateria
Fernando Gelbard e “Chango” Farías Gómez – percussão
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios ION, Buenos Aires, em Julho de 1970
Técnico de gravação – Gerd Gaumgartner
Direcção de gravação – Mike Ribas
CÂNTICO
Poema de Vinicius de Moraes (in “Poemas, Sonetos e Baladas”, São Paulo: Edições Gavetas, 1946; “Antologia Poética”, Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 170-173)
Recitado pelo Autor* (in LP “Vinicius em Portugal”, Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)
Não, tu não és um sonho, és a existência Tens carne, tens fadiga e tens pudor No calmo peito teu. Tu és a estrela Sem nome, és a morada, és a cantiga De amor, és luz, és lírio, namorada! Tu és todo o esplendor, o último claustro Da elegia sem fim, anjo! mendiga Do triste verso meu. Ah, fosses nunca Minha, fosses a ideia, o sentimento Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora Ausente, amiga, eu não te perderia! Amada! onde te deixas, onde vagas Entre as vagas flores? e por que dormes Entre os vagos rumores do mar? Tu Primeira, última, trágica, esquecida De mim! És linda, és alta! és sorridente És como o verde do trigal maduro Teus olhos têm a cor do firmamento Céu castanho da tarde — são teus olhos! Teu passo arrasta a doce poesia Do amor! prende o poema em forma e cor No espaço; para o astro do poente És o levante, és o Sol! eu sou o gira O gira, o girassol. És a soberba Também, a jovem rosa purpurina És rápida também, como a andorinha! Doçura! lisa e murmurante… a água Que corre no chão morno da montanha És tu; tens muitas emoções; o pássaro Do trópico inventou teu meigo nome Duas vezes, de súbito encantado! Dona do meu amor! sede constante Do meu corpo de homem! melodia Da minha poesia extraordinária! Por que me arrastas? Por que me fascinas? Por que me ensinas a morrer? teu sonho Me leva o verso à sombra e à claridade. Sou teu irmão, és minha irmã; padeço De ti, sou teu cantor humilde e terno Teu silêncio, teu trémulo sossego Triste, onde se arrastam nostalgias Melancólicas, ah, tão melancólicas… Amiga, entra de súbito, pergunta Por mim, se eu continuo a amar-te; ri Esse riso que é tosse de ternura Carrega-me em teu seio, louca! sinto A infância em teu amor! cresçamos juntos Como se fora agora, e sempre; demos Nomes graves às coisas impossíveis Recriemos a mágica do sonho Lânguida! ah, que o destino nada pode Contra esse teu langor; és o penúltimo Lirismo! encosta a tua face fresca Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma É o último suspiro da poesia O mar é nosso, a rosa tem seu nome E rescende mais pura ao seu chamado. Julieta! Carlota! Beatriz! Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto Que se não brinco, choro, e desse pranto Desse pranto sem dor, que é o único amigo Das horas más em que não estás comigo.
* Produção – João Martins
Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969