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CELEBRANDO VINICIUS DE MORAES – 6 – por Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Vinicius de Moraes (os recitados e os cantados), há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.pt/2013/10/celebrando-vinicius-de-moraes_29.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

PELA LUZ DOS OLHOS TEUS

 

Poema e música: Vinicius de Moraes
Intérprete: Vinicius de Moraes* (in LP “Bossa Nova Mesmo”, Philips, 1960; CD “Lances de Vinicius 1”, Universal, 2001)

[instrumental]

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só p’ra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais, larirurá

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar

[instrumental]

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais, larirurá

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar

* Conjunto Óscar Castro Neves
Produção – Aloysio de Oliveira

TERNURA

Poema de Vinicius de Moraes (in “Novos Poemas”, Rio de Janeiro: José Olympio, 1938; “Antologia Poética”, Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 134-135)
Recitado pelo Autor* (in LP “Vinicius em Portugal”, Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afecto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

* Produção – João Martins

Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969

EU SEI QUE VOU TE AMAR

Poemas: Vinicius de Moraes (em itálico “Soneto de Fidelidade”, 1939, in “Poemas, Sonetos e Baladas”, São Paulo: Edições Gavetas, 1946; “Antologia Poética”, Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 136-137)
Música: António Carlos Jobim
Intérpretes: Maria Creuza, Vinicius de Moraes* e Toquinho (in LP “Vinicius de Moraes en ‘La Fusa’ con Maria Creuza y Toquinho”, Phono Musical Argentina, 1970, reed. DiscMedi, 1995, RP Music, 2006)

[instrumental]

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será p’ra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há-de apagar
O que esta ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei-de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

* [Créditos gerais do disco:]
Toquinho – guitarra
Mario “Mojarra” Fernandez – contrabaixo
Enrique “Zurdo” Roizner – bateria
Fernando Gelbard e “Chango” Farías Gómez – percussão
Produção – Alfredo I. Radoszynski
Gravado nos Estúdios ION, Buenos Aires, em Julho de 1970
Técnico de gravação – Gerd Gaumgartner
Direcção de gravação – Mike Ribas

CÂNTICO

Poema de Vinicius de Moraes (in “Poemas, Sonetos e Baladas”, São Paulo: Edições Gavetas, 1946; “Antologia Poética”, Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 – págs. 170-173)
Recitado pelo Autor* (in LP “Vinicius em Portugal”, Festa, 1969, reed. Universal, 2001, Tratore Music Brasil, 2007)

Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
De amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a ideia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde — são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante… a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trémulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas…
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E rescende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

* Produção – João Martins
Gravado na Livraria Quadrante, Lisboa, em 1969

 

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