POESIA AO AMANHECER – 320 – por Manuel Simões
13 anos ago
ERNESTO LARA FILHO
( 1932 – 1977 )
PERGUNTA
para meu Pai
Tu,
que lá em Benguela
tinhas saudades do Minho
expressas
em todos os teus olhares saudosos,
em todas as conversas.
Tu,
que sempre recordavas lá tão longe
a tua terra distante
o teu Portugal de Menino
Por que,
meu Pai,
me negas o direito simples
de amar a minha terra,
a minha Angola?
Por que me negas todos os dias,
a todas as horas,
o direito sagrado
de ter saudades da minha terra,
de olhar com os olhos embaciados,
mas contentes,
de escrever longas cartas inconsequentes,
de ter longas conversas melancólicas
sobre a minha terra desflorada,
a minha Angola adiada?
Serei poeta também
adiado como a minha terra.
Eu negarei Pai e Mãe
pela minha terra.
Três vezes como Pedro
o apóstolo
negou Cristo.
Três vezes antes de o galo cantar
no raiar da madrugada.
Lisboa, 1962.
(de “O Canto do Martrindinde”)
Poeta e cronista. Incluído na primeira antologia de poesia angolana (CEI, 1959). Obra poética: “Picada de Marimbondo” (1961), “O Canto do Martrindinde” (1963) e “Seripipi na Gaiola” (1970). Os três livros foram depois reunidos em “O Canto do Martrindinde” (1987).