POESIA AO AMANHECER (20) – por Manuel Simões

Pedro Tamen – Portugal

( 1934 –   )

AGORA ABANDONADO SEM SENTIMENTO ALGUM”

Agora abandonado sem sentimento algum

de ter valido a pena ou de não isso,

de olhos abertos mais, assumo e amo,

encordoado como não sei que bicho,

de pé coxinho como não sei que homem.

Olho A e B, e a ti, porém contando

com posição de mar roçando a praia alheia,

tão marginal mas útil de outra forma,

tão mar e marginal, desfeito mas fazendo.

O lar sonhado não é aqui, mas onde

não sonhe mais por ele. Vivo

de pé, completo com aquilo

que outro vento não tive que me desse,

e mais ainda, com o que não tenho agora

nem pretendo prever: o dia é grande,

a morte igual, a voz silente.

Não posso pedir mais que o dom da sede.

(de “Poetas portugueses contemporãneos”)

Poesia que traduz uma profunda reflexão é, em muitos lugares, intensamente sentenciosa. . Estreou-se com “Poema para todos os dias” (1956) a que se seguiu uma abundante produção. Citam-se, entre outros: “O sangue, a água e o vinho” (1958), “Escrito de memória” (1973), “Princípio de sol” (1982), “Tábua das matérias” (1991), “Guião de Caronte” (1997).

 

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