Pedro Tamen – Portugal
( 1934 – )
“AGORA ABANDONADO SEM SENTIMENTO ALGUM”
Agora abandonado sem sentimento algum
de ter valido a pena ou de não isso,
de olhos abertos mais, assumo e amo,
encordoado como não sei que bicho,
de pé coxinho como não sei que homem.
Olho A e B, e a ti, porém contando
com posição de mar roçando a praia alheia,
tão marginal mas útil de outra forma,
tão mar e marginal, desfeito mas fazendo.
O lar sonhado não é aqui, mas onde
não sonhe mais por ele. Vivo
de pé, completo com aquilo
que outro vento não tive que me desse,
e mais ainda, com o que não tenho agora
nem pretendo prever: o dia é grande,
a morte igual, a voz silente.
Não posso pedir mais que o dom da sede.
(de “Poetas portugueses contemporãneos”)
Poesia que traduz uma profunda reflexão é, em muitos lugares, intensamente sentenciosa. . Estreou-se com “Poema para todos os dias” (1956) a que se seguiu uma abundante produção. Citam-se, entre outros: “O sangue, a água e o vinho” (1958), “Escrito de memória” (1973), “Princípio de sol” (1982), “Tábua das matérias” (1991), “Guião de Caronte” (1997).

