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FERNANDO PESSOA POR JOÃO VILLARET – 3– de Álvaro José Ferreira

Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Fernando Pessoa recitados por João Villaret, há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.pt/2013/11/fernando-pessoa-por-joao-villaret.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

Poema de Fernando Pessoa (in “Presença”, n.º 38, Coimbra: Abr. 1933; “Fernando Pessoa: Poesias”, Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Ática, 1942)
Recitado por João Villaret (in LP “Fernando Pessoa por João Villaret”, Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)

Como uma voz de fonte que cessasse

Poema de Fernando Pessoa (soneto XIV de “Passos da Cruz”, in “Centauro”, n.º 1, Lisboa: Out.-Dez. 1916; “Fernando Pessoa: Poesias”, Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Ática, 1942)
Recitado por João Villaret (in LP “Fernando Pessoa por João Villaret”, Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)

Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce

Parou… Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce…

A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste…

E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida…
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo…

Sol nulo dos dias vãos

Poema de Fernando Pessoa (in “Athena”, n.º 3, Lisboa: Dez. 1924; “Fernando Pessoa: Poesias”, Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Ática, 1942)
Recitado por João Villaret (in EP “João Villaret Diz… António Botto – Fernando Pessoa – Mário de Sá Carneiro”, Parlophone/VC, 1964; LP “Procissão”, Valentim de Carvalho,
1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)

Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a luz, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!

HORA ABSURDA (*)

Poema de Fernando Pessoa (in “Exílio”, n.º 1, Lisboa: Abr. 1916; “Fernando Pessoa: Poesias”, Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Ática, 1942)
Recitado por João Villaret (in EP “João Villaret Diz… António Botto – Fernando Pessoa – Mário de Sá Carneiro”, Parlophone/VC, 1964; LP “Procissão”, Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas…
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso…
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso…

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte…
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto…
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia…, e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte…

Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões…
Minha alma é uma caverna enchida pela maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões…

Chove ouro baço, mas não no lá-fora… É em mim… Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela…
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora…
No meu céu interior nunca houve uma única estrela…

……………………………………………………………

4-7-1913

(*) Texto integral em: http://arquivopessoa.net/textos/829

(Continua)

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