Há 30 anos, em Março de 1983, Lisboa acolheu uma conferência internacional de solidariedade com os países da Linha da Frente – os Estados africanos, independentes ou ainda ocupados, como era o caso da Namíbia, vítimas do belicismo e do expansionismo do regime de apartheid na África do Sul.
A libertação de Nelson Mandela foi uma das exigências aprovadas pelos participantes. Apesar dos enormes esforços desenvolvidos pelos organizadores da reunião, a mensagem teve pouco eco. Para grande parte da comunicação oficial, em Portugal e por essa Europa fora, o caso de Mandela era um não-assunto, uma esquisitice ideológica da esquerda “às ordens” da União Soviética. O Partido Socialista, dirigido pelo Sr. Mário Soares, boicotou oficialmente a conferência; jornais criticaram o chefe de Estado, então Ramalho Eanes, por ter recebido Oliver Tambo, presidente do Conselho Nacional Africano (ANC) de Mandela, uma “organização terrorista”.
Essas apreciações não eram mais do que fruto da corrente dominante. O presidente dos Estados Unidos, o Sr. Ronald Reagan, acabara de incluir o ANC na lista das “organizações terroristas”, dizendo também que não podia abandonar um país, a África do Sul sob regime racista, “que esteve sempre do nosso lado em todas as guerras”. Dois anos depois, o mesmo Reagan vetou a imposição de sanções económicas à África do Sul, prolongando a vida do apartheid, ao mesmo tempo que, do Afeganistão à África Austral, passando pela América Central e do Sul, apoiava “combatentes da liberdade” especializados em atrocidades contra processos libertadores e contra os direitos humanos.
Entretanto, jovens conservadores britânicos e futuros políticos passeavam-se nas universidades com mensagens na lapela dizendo “enforquem Mandela”. Em 1987, a Srª Thatcher, primeira ministra britânica, repetia que Mandela era “um terrorista” e um deputado do seu partido, Edward Taylor, não tinha dúvidas de que o dirigente do ANC “deveria ser abatido”. Nesse mesmo ano, alinhando com as teses dos Estados Unidos e do Reino Unido, insistindo até na absurda exigência de fazer depender a independência da Namíbia do fim da colaboração militar cubana com Angola, o Portugal do governo do Sr. Cavaco Silva e do Sr. Mário Soares como presidente da República votou na ONU contra a libertação de Mandela.
Estes factos pertencem à História. Por isso, quando a generalidade dos dirigentes mais influentes no Mundo, na Europa e nos Estados Unidos, invocam o exemplo da vida Mandela como sendo a sua fonte de inspiração estamos perante um fenómeno assustador. Trata-se de gente poderosa e que deixou de ter limites na propaganda e na mentira.
Mandela nunca cometeu atrocidades como as que Obama patrocinou na Líbia, na Síria, e jamais comandou execuções extra judiciais como aquelas em que o actual presidente dos Estados Unidos se tornou notado, com ou sem recurso a drones. (Aliás, só em 2008 – quando Mandela completou 90 anos e deixara há nove anos de ser presidente da África do Sul – é que os Estados Unidos retiraram o ANC da lista de “organizações terroristas”. E sabem porquê? Porque a Srª Condolezza Rice, secretária de Estado do Sr. Bush filho, considerava “embaraçoso” avistar-se com o ministro sul africano dos Negócios Estrangeiros, portanto membro de um governo do ANC e, como tal, “um terrorista”)
Mandela nunca mentiu para dar origem a uma guerra – aliás a sua vida foi uma luta contra a guerra – como fizeram os Srs. Tony Blair e Durão Barroso em relação ao Iraque.
Mandela nunca se disponibilizou para derrubar governos e mandar tropas para países alheios como faz o Sr. Hollande.
Ao contrário do Sr. Cavaco Silva, Mandela nunca precisou de arranjar pretextos para justificar atitudes internacionais indecorosas enquanto permite que a tortura social se generalize contra os seus concidadãos.
Poucos dias antes de Nelson Mandela ser libertado, em Fevereiro de 1990, o jovem e prometedor político conservador inglês David Cameron – hoje um primeiro ministro empenhado em renegar as posições da Srª Thatcher sobre o apartheid – estava em Pretória a convite de um lobby internacional dedicado a evitar sanções económicas contra o regime racista e terrorista da África do Sul.
Na sua autobiografia, Nelson Mandela escreveu que as mudanças conseguidas na África do Sul com o fim do apartheid representam uma pequena parte de um caminho imensamente maior a percorrer, porque “democracia com fome e injustiça é como uma concha vazia”.
Olhemos então os dirigentes do regime da globalização, os citados e muitos outros, que enchem os discursos com o exemplo de Mandela não passando eles, na prática, de hipócritas anti-Mandelas faltando ao respeito àquele que dizem homenagear. Nas suas mãos, a democracia é de facto, e cada vez mais, uma concha vazia.