No dia do funeral das três ativistas curdas executadas em Paris numa operação caracterizada por evidentes indícios de terrorismo profissional, a BBC, sempre tão orgulhosa de si mesma, não encontrou melhor razão para se interrogar: “Porque é que as mulheres curdas se juntam ao PKK?”, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão.
Perguntar não ofende, dirão. Mas pode representar um desvio intencional do que está no centro da informação.
Salvo melhor opinião, a pergunta adequada ao momento seria: “porque é que um milhão de pessoas se juntou no funeral de três ativistas curdas?”
A pergunta da BBC é passível de muitas respostas, por redução ao absurdo que são as revistas de coscuvilhices e respetivos inquéritos poderíamos ficar a saber, por exemplo, que as mulheres curdas se sentem atraídas pelo bigode de Abdullah Oçalan, o dirigente do PKK sequestrado nas mãos do regime turco.
A resposta à pergunta sobre as razões que levam a juntar-se um milhão de curdos no funeral de três ativistas traiçoeiramente abatidas já não pode procurar-se nos caminhos do fait divers. A resposta diz-nos que os curdos estão mobilizados pelo que aquelas três mulheres – e o partido em que militavam – representam, a procura da paz através do reconhecimento dos seus mais elementares direitos como povo, o uso da língua pátria nas escolas, na comunicação social, na vida quotidiana, o fim das discriminações, principalmente na justiça, de que são alvo na Turquia, o país que lhes impõe a nacionalidade.
A enorme manifestação em que se transformou o funeral de Salikine Cansiz, Fida Dogan e Leyla Solemez é um grandioso sinal de apreço pela dedicação destas mulheres à conquista dos direitos curdos; é também um vigoroso “sim” ao processo de discussão que o PKK partilha atualmente com o governo turco sobre os direitos da minoria que representa 20 por cento da população da Turquia.
As balas que mataram as três mulheres foram disparadas também sobre o processo de diálogo. Um diálogo desigual, é certo, entre um regime da NATO que serve de base avançada para o controlo dos Estados Unidos sobre o Médio Oriente e a Ásia Central, e um homem que ele mantém isolado do mundo numa prisão de uma inóspita ilha. Mandela venceu em circunstâncias igualmente adversas, sinal de que não há impossíveis, e talvez por não haver esses impossíveis o terrorismo tenha recorrido à bala para os evitar de vez.
Quem disparou? Quem mandou disparar? As autoridades francesas continuam em silêncio, supostamente a investigar, se calhar em ambiente nada tranquilo porque qualquer conclusão capaz de perturbar as relações com a Turquia provoca dores de barriga no Eliseu e no Quai d’Orsay. Em volta do assunto há muitas teses, muita contrainformação. E nesta matéria os curdos serão, certamente, os menos habilitados.
Abdullah Oçalan e o PKK negoceiam reclamando direitos humanos e nacionais, mas não a independência. Têm a noção de que o modo como os dirigentes curdos do Iraque trocaram o petróleo de Kirkuz pelo poder em Bagdad ao serviço dos Estados Unidos e a vida infernal das minorias curdas no Irão e na Síria inviabilizam, a longa distância, as promessas internacionais de existência de um Curdistão. Apostam, por isso, no reconhecimento dos direitos e da dignidade dos curdos na Turquia.
Uma tese primária de contrainformação, muito seguida pela BBC e afins, é de que o crime foi um “ajuste de contas” no PKK por discordância com esta estratégia. É uma tese que tinha de surgir, está nos manuais da conspiração e da provocação.
Não é preciso, porém, recorrer aos manuais para se saber há muito que a estratégia do governo islamita turco de contactos com Oçalan é contestada pelos militares e os serviços de segurança, organizações determinantes no regime turco. A história recente da Turquia, mesmo dos tempos da ditadura militar, é caracterizada pela repressão e uma guerra sem quartel contra a minoria curda e os seus representantes, acima de tudo Oçalan e o PKK por terem respondido com a luta armada.
Um qualquer dia será anunciada uma verdade “oficial” decorrente da investigação, que poderá ser, ou não, coincidente com a realidade. A questão de fundo, porém, é saber se as balas que liquidaram as três mártires fizeram o mesmo ao diálogo. A partir deste desfecho cada um poderá retirar as suas conclusões sobre um episódio em que, como acontece com tantos outros, a verdade verdadeira talvez nunca venha a ser conhecida.
