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POESIA AO AMANHECER – 338 – por Manuel Simões

 DUARTE GALVÃO

     ( 1929 )

            CORPO DE BRUMA

            Em pé no terraço da fortaleza, ele prescuta

            o horizonte, como se esperasse alguém, forma

            que se desenhasse, murmúrio que se escutasse.

            Ele tem a percepção de um estado outro, um sonho

 

            capaz de fundir o real e a ficção, sorriso

            imperceptível, olhar sobre o rosto de beleza

            e a beleza do gesto secular, corpo de bruma,

            vida que palpitasse nos seus braços. Abandono.

 

            Certa do silêncio da memória, a nau avança.

            Um vulto incandescente acena, familiares vozes

            que se perdem no ardor das vagas contra o tempo.

 

            As estrelas brilham. Muda, a fulgurância das chamas

            incendeia o coração, como se possível fosse

            reviver um amor, anjo que a morte nos devolve.

            (de “A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas”)

Pseudónimo de Virgílio de Lemos. Fundador da revista “Msaho” (1952), símbolo da ruptura com a literatura colonial. Exilou-se em França em 1963. Obra poética: “Poemas do Tempo Presente” (1960), “Objet à trouver” (1988), “Para fazer um Mar” (2001), “A Dimensão do Desejo” (2012).

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