POESIA AO AMANHECER – 405 – por Manuel Simões

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RUI DUARTE RODRIGUES

                                                  ( 1951 )

 

            FAJÃ DO TEMPO

 

            Ilhas com suas chaminés fumegando

            vapores de angústia

 

            Escrevo-te ao entardecer

            à luz do petróleo de outros tempos.

            Mistura-se o cheiro da humidade da horta

            das faias da bosta

            e o de um guisado – favas novas

            com linguiça

 

            Tardes de queda amortecida

 

            Parece lento o queimar da torcida do tempo.

            Ponho de lado óculos, livro, cansaço.

            Deixo-me adormecer

            na cadeira de pau, junto ao fogo

            da cozinha

 

            O quintal não cai no abismo

            por um nada

 

            Carrega ainda a figueira tingida de poentes

            sobre um oceano de silêncios

 

            (da antologia “Nove Rumores do Mar”)

 

Poeta e activista cultural nos jornais, rádio e teatro. Obra poética: “Os meninos morrem dentro dos homens” (1970), “Com segredos e silêncios” (1994).

 

 

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