DUARTE GALVÃO
( 1929 )
CORPO DE BRUMA
Em pé no terraço da fortaleza, ele prescuta
o horizonte, como se esperasse alguém, forma
que se desenhasse, murmúrio que se escutasse.
Ele tem a percepção de um estado outro, um sonho
capaz de fundir o real e a ficção, sorriso
imperceptível, olhar sobre o rosto de beleza
e a beleza do gesto secular, corpo de bruma,
vida que palpitasse nos seus braços. Abandono.
Certa do silêncio da memória, a nau avança.
Um vulto incandescente acena, familiares vozes
que se perdem no ardor das vagas contra o tempo.
As estrelas brilham. Muda, a fulgurância das chamas
incendeia o coração, como se possível fosse
reviver um amor, anjo que a morte nos devolve.
(de “A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas”)
Pseudónimo de Virgílio de Lemos. Fundador da revista “Msaho” (1952), símbolo da ruptura com a literatura colonial. Exilou-se em França em 1963. Obra poética: “Poemas do Tempo Presente” (1960), “Objet à trouver” (1988), “Para fazer um Mar” (2001), “A Dimensão do Desejo” (2012).
