POESIA AO AMANHECER – 198 – por Manuel Simões

AFONSO DUARTE

(1884 – 1958)

GRITO

(A Manuel Mendes)

Não posso já com ervas nem com árvores:

Prefiro os lisos, frios mármores

Onde nada está escrito.

Meu gosto da paisagem fez-se escuro;

Nenhures é o lugar que mais procuro

Como homem proscrito.

Eu bem sei: A verdura! A flor! Os frutos!

Mas não posso passar de olhos enxutos,

Meu campo verde aflito.

Porventura cegaram os meus olhos

Porque há nos silveirais flores aos molhos

– Tanta flor me tem dito.

Mas eu bem sei que movediços lodos

Que são o chão, as lágrimas de todos,

Meu coração contrito.

Eu não sei se amanhã será meu dia;

Recolho-me furtivo na poesia,

Incerto o chão que habito.

Ai de mim! Ai de mim, nuvem medonha!

Os homens conheci, bebi peçonha,

E é por isso que grito.

(de “Ossadas”)

Interferiu em diversos movimentos literários e dele Carlos de Oliveira e João José Cochofel  se consideraram discípulos. Com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca fundou a revista coimbrã “Tríptico” (1924). A sua obra poética reparte-se por “Cancioneiro das Pedras” (1912), “Tragédia do Sol-Posto” (1914), “Rapsódia do Sol-Nado” (1916), “Ossadas” (1947), “Post-Scriptum de um Combatente” (1949), “Sibila” (1950), “Canto de Babilónia” (1950), “Canto de Morte e Amor” (1952).

Leave a Reply