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POESIA AO AMANHECER – 340 – por Manuel Simões

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                                   RUI KNOPFLI

                                        ( 1932 )

            GRITARÁS O MEU NOME

            Gritarás o meu nome em ruas

            desertas e a tua voz será

            como a do vento sobre a areia:

            um som inútil de encontro ao silêncio.

            Não responderei ao teu apelo,

            embora ardentemente o deseje.

            O lugar onde moro é um obscuro

            lugar de pedra e mudez:

 

            não há palavras que o alcancem,

            gelam-lhe os gritos por fora.

            Serei como as areias que escutam

            o vento e apenas estremecem.

 

            Gritarás o meu nome em ruas

            desertas e a tua voz ouvirá

            o próprio som sem entender,

            como o vento, o beijo da areia.

 

            Teu grito encontrará somente

            a angústia do grito ampliado,

            vento e areia. Gritarás o meu

            nome em ruas desertas.

 

            (de “Resistência Africana”)

Poeta moçambicano. Coordenador, com J.P. Grabato Dias, dos cadernos “Caliban” (1971). A sua produção poética veicula um percurso original no período que precede a independência. Obra poética: “O País dos Outros” (1959), “Reino Submarino” (1962), “Máquina de areia” (1964), “Mangas verdes com sal” (1969), “Ilha do Próspero” (1972), “O Escriba Acocorado” (1978), “O Corpo de Atena” (1984).

 

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