A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 58 – por Sérgio Madeira
carlosloures
Capítulo cinquenta e oito
O major Gilberto Alves chegou a Lourenço Marques por aquela manhã de Agosto de 1974, a bordo de um Nord-Atlas 2501 cujas condições de conforto não eram as melhores. As muitas horas de voo, do Figo Maduro a Moçambique, com escala na Ilha do Sal, tinham-no deixado fatigado. Antes de ir ao Comando Militar para uma reunião, queria passar pelo hotel, tomar um bom duche, barbear-se, vestir um uniforme limpo. Uma pequena mala de mão com roupa e utensílios de higiene e uma pasta de cabedal com documentos, constituíam toda a sua bagagem. A reunião agendada para essa tarde, destinava-se a esclarecer, previamente à realização da reunião em Lusaka, agendada para Setembro, alguns casos pendentes. A ONU criara uma comissão de inquérito sobre o massacre de Xuvalu e, como era natural, queria ouvir o comandante militar das forças que tinham intervindo na operação,..Na pasta, trazia muita documentação sobre agentes da polícia política e a ordem de operações que lhe fora distribuída no briefing realizado no aeródromo de Tete. As folhas tinham o timbre da polícia política, estavam assinadas pelo inspector Câncio. Trazia também uma declaração do padre Manuel segundo a qual tinham sido os oficiais portugueses que tinham impedido a sua morte. O major, antes de entrar para o jeep que o iria conduzir ao Hotel Polana, telefonou ao Comando, confirmando a hora de começo da reunião. informaram-no de quem integrava a comissão. Os membros da comissão de inquérito, um norueguês, um inglês e uma neo-zelandesa, fariam as interpelações em língua inglesa. Perguntaram se necessitava de intérprete. Disse que não.
No hotel, com o ar condicionado regulado e com os cortinados corridos, uma penumbra fresca levaram-no a pensar em passar pelas brasas. Vestindo um roupão, já com o duche tomado e a barba bem escanhoada, pediu que lhe trouxessem uma refeição leve. Num maple, colocara as peças do uniforme que iria levar à reunião. E dispôs-se a reler algumas das peças que apoiariam as suas alegações. Bateram à porta, O almoço disseram, Mandou entrar e continuou a ler.
Um empregado negro, entrou empurrando um carrinho. Fez sinal para que o servisse na mesa baixa.
– Com certeza meu major.
A voz do criado soou-lhe de forma familiar ergueu os olhos. O agente Nachawi todo de branco, fitava-o sorridente. Na mão enluvada uma “9mm Para” com silenciador. Gilberto Alves não sentiu medo ia dizer qualquer coisa, mas o tiro na testa antecipou-se. Nachawi recolheu os documentos, os que o major segurava e os que estavam na pasta. Retirou o silenciador da velha Parabellum e colocou a arma na mão direita do major. Olhos abertos, o oficial ostentava uma expressão tranquila. O sangue que lhe brotava do occipital ia tingindo o roupão de pano turco.