A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 57 – por Sérgio Madeira

Por erro de postagem, publicámos na passada sexta-feira, dia 20 de Dezembro, o capítulo 58 e não, como era devido, o 57. Publicamo-lo hoje, com o nosso pedido de desculpa pelo erro.

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Capítulo cinquenta e sete

-Imediatamente!

A voz de comando do tenente Fragoso, preparada para ser ouvida em tombadilhos varridos por rajadas de vento e acima do fragor de tempestades e borrascas, fez aparecer um director de serviço. «O rapaz era um estagiário, um continental inexperiente», disse o senhor idoso e com ar formal que pediu desculpa ao tenente e se apressou a identificar o hóspede da cadeira de rodas –  « O dr. Norberto de Sousa, alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique».

O tenente ia a fazer nova pergunta, quando ouviram uma voz rouca gritar da porta: «Façam o favor de dizer o que querem de mim!».

Com o motor eléctrico desligado, empurrando as rodas da cadeira com as mãos enluvadas, aproximou-se rapidamente do grupo. Inclinou a cabeça na direcção das senhoras e voltou para António e Fragoso um rosto duro, marcado por cicatrizes e emoldurado  por cabelos brancos abundantes. Falou em tom incisivo de quem está habituado a ser obedecido:

–  Gostaria de trocar umas impressões convosco…

– Podemos fazer essa troca de impressões na Capitania – disse o tenente.

 – Já pedi a cedência de uma salinha ao senhor gerente – respondeu Norberto de Sousa,  que acrescentou – prefiro que esta reunião informal se faça aqui…

– O que o senhor prefere ou não prefere,  não me interessa. – a rudeza do tenente surpreendeu António e Cecília. O oficial completou – Não estamos em Moçambique…

– Pois não – o inspector Ramos entrou no hall e a sua figura rotunda conferiu ênfase ao que disse – não estamos em Moçambique, estamos em Portugal – fez uma pausa, fitou o tenente Fragoso e terminou o raciocínio – e como não estamos na praia, a jurisdição é da Polícia Judiciária – nova pausa – E eu não prefiro, eu exijo que a reunião se faça já e aqui, como o dr. Sousa sugeriu.

O tenente segurou o cotovelo de sua mulher:

– Vamos Elisabete…

Ramos atalhou:

– A senhora pode sair, o nosso tenente, tem de ficar! – o uso do pronome possessivo, adjectivando-o, estabelecia uma hierarquia que, militarmente, colocava o inspector acima. Acusando o toque, o tenente franziu o sobrolho:

– Só obedeço a superiores…

Ramos retirou do bolso do casaco um envelope que estendeu a Fragoso:

– Aqui tem ordens dos seus superiores.

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