«Isto assim não pode ser!»
O Pato convoca uma reunião de emergência – quer pôr ordem na rubrica. E para tal, desloca-se a Lisboa. Quem está presente? O Pato, claro, o Inspector Pais, o investigador Filipe Marlove, o Professor Júlio Marques Mota, Sérgio Madeira e, na qualidade de secretária, a borbulhenta Marília. A reunião tem lugar no acanhado gabinete de Filipe na Rua dos Correeiros. No patamar da escada, o agente Esteves monta a segurança, auxiliado por dois outros elementos da Judiciária.
– Isto assim não pode ser – diz o Pato em jeito de abertura.
– O que é que não pode ser? – O inspector Pais está irritado – Então, agora andamos às ordens de um pato? Um galináceo é que decide o que pode e o que não pode ser?
– Um galináceo? Refere-se a mim, senhor inspector? – Olhe que eu sou um anseriforme, da família dos anatídeos…
– Mas comes milho painço… – diz o Professor com um sorriso de troça.
O Pato fica engasgado pela ira:
– Nunca! Nunca comi milho painço!
Madeira intervém:
– Bem, o que é que tens para nos dizer? O que é que não pode ser?
– Esta rubrica está numa baralhada terrível …
– Eu é que sou o autor – diz Madeira – eu é que decido o que pode ou não pode ser.
O Pato resmunga:
– O autor… o autor… Está bem, é o senhor que engendra esta balbúrdia. Mas a rubrica tem o meu nome. Se isto não melhora, exijo que mudem a designação.
– Talvez , «O Pato de penas engalanado»… – alvitra o Professor.
– Ó Filipe – diz o Pais – Aplique-lhes o discurso do Palim Sexto e do cientista australiano… Aquela treta do Emprintingue .
– Imprinting – corrige Filipe.
– Foi o que eu disse – E volta-se para a assembleia – Meus senhores e minha senhora – Por baixo da realidade aparente, está a realidade, a verdadeira realidade. É o Pralim Sexto…
– Palimpsesto!
– Foi o que eu disse… – o Pato interrompeu-o:
– E o que tem isso a ver com o problema da balbúrdia?
– Sei lá! O Professor e o Madeira que expliquem. Eu apenas sou uma personagem.
– E o Pato apenas é uma personagem com penas – gracejou o Professor.
O Sérgio Madeira, tossiu, e pediu a palavra:
– Vamos então esclarecer tudo… – o Pais interrompeu-o com um berro:
– Ó Esteves, venha cá!
Passados uns segundos o agente abriu a porta envidraçada:
– Chamou, senhor inspector?
– Ó Esteves, mande aí um dos seus subordinados, comprar uns pastéis de bacalhau.
– Quantos?
O inspector voltou-se para o Madeira:
– Isto vai demorar?
– Não. Vamos despachar-nos depressa.
– Ainda bem – para os circunstantes perguntou – Ninguém é servido, pois não? – perante o silêncio, decidiu – Traga só uma dúzia.
