Site icon A Viagem dos Argonautas

FALEMOS DE ECONOMIA, FALEMOS ENTÃO DE POLÍTICA – CONSOLIDAÇÕES ORÇAMENTAIS E EFEITOS DE REPERCUSSÃO NA ZONA EURO, NOS PAÍSES DO NÚCLEO CENTRAL E NOS PAÍSES DITOS PERIFÉRICOS, por JAN INT’T VELD

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

Introdução ao  texto de  Jan int’t Veld sobre os efeitos da consolidação orçamental na zona euro

Um texto de Jan int’t Veld, um texto do especialista na Comissão Europeia em modelização económica. Não é um portanto um economista qualquer. Possivelmente um dos mais relevantes economistas a trabalhar para Durão Barroso, para Olli Rehn, para os homens que mandam na Europa. Um texto importante para discutir a Europa e a crise, para questionar o absurdo em que nos colocam com as políticas de austeridade. Para vos  dar um exemplo, segundo a modelização  da União Europeia e na hipótese de se acabar, e de vez, com a consolidação orçamental, só em 2018 atingiremos o PIB alcançado em 2010.    Um texto perante o qual os deputados do PS, do Bloco de Esquerda e do PC deveriam obrigar o Primeiro-ministro a explicar-se porque é que perante tais  números, perante tais projecções continua na mesma via e não se posiciona frontal e publicamente  contra a Troika. Talvez mais relevante que questionar as afirmações de Christine  Lagarde agora em Bruxelas,  seria questionar a Troika com os trabalhos do economista chefe  do FMI,  Olivier Blanchard, seria igualmente confrontar os dirigentes de Bruxelas  com o presente trabalho de um dos mais reputados economistas de que dispõe exactamente Bruxelas, Jan int’t Veld. Face a estes mesmos textos somos levados a considerar  que aceitar a política seguida, eneste contexto de recessão generalizada, ou seja, de acordo com esta modelização da União Europeia,  e lembrando François Asselineau, é fugir a reconhecer o facto de que esta política e esta sujeição à política imposta pela Troika faz parte do que se poderia chamar de crime de alta traição ao presente e ao futuro do  nosso país. Nem mais nem menos, isto mesmo.

Mas há mais, há em Belém um fantasma que dá por formação ser economista  mas, se assim é, então que se reveja neste documento e peça a seguir a sua demissão por se sentir ao longo deste mandato completamente enganado pelos manipuladores de símbolos, expressão esta a lembrar Robert Reich, manipuladores de referências, de números, de hipóteses fantasistas nos seus modelos para  justificar as políticas de austeridade até aqui aplicadas, manipuladores estes  sediados na grande central de intoxicação que é Bruxelas.

Aos leitores de A viagem dos Argonautas devemos dizer que não se trata de um texto  fácil mas conscientes deste facto publicaremos lateralmente um ou dos textos de jornais franceses sobre o mesmo tema que garantidamente tornarão a leitura deste texto mais apetecível.   A ilustração económica e social do que por aqui passa,  pela modelização de Jan int’t Veld, será feita pela publicação na língua de Camões do relatório da Cruz Vermelha Internacional, publicado em Outubro último.

E a nossa série Falemos de Economia, falemos então de Política continua assim o rumo previamente fixado.

Coimbra, 15 de Dezembro de 2013.

Júlio Marques Mota

xxxxxx

CONSOLIDAÇÕES ORÇAMENTAIS  E EFEITOS DE REPERCUSSÃO NA ZONA EURO, NOS PAÍSES DO NÚCLEO CENTRAL E NOS PAÍSES DITOS PERIFÉRICOS  

 Jan int ‘t Veld,

Parte I

Síntese

Este texto utiliza um modelo estrutural multi-países para avaliar o impacto das medidas da consolidação orçamental que foram aplicadas entre 2011-13 na periferia e  nos países economicamente mais importantes da zona euro. As simulações supõem que prevalecem as condições ‘da crise’  (uma alta percentagem de famílias sob constrangimentos económicos e financeiros). Os efeitos sobre o PIB dependem fundamentalmente  da composição da consolidação e de como rapidamente as expectativas são afectadas.

As consolidações baseadas na despesa têm maiores multiplicadores de impacto do que as consolidações baseadas nos rendimentos. Em termos médios os multiplicadores para os choques orçamentais internos  variam entre  0,5 e 1, segundo o grau de abertura. Mas as efeitos de arrasto das  consolidações orçamentais  são grandes, com o canal da procura e o canal da concorrência a adicionarem-se  aos efeitos negativos sobre o PIB. Os prémios de risco mais altos adicionam-se  mais ainda aos efeitos negativos sobre o PIB. Os efeitos de arrasto  das consolidações na  Alemanha e no núcleo da zona euro agravaram a situação económica total. Um estímulo orçamental temporário  nos países com excedentes  pode impulsionar e dinamizar a  actividade económica  e ajudar  a reduzir os seus excedentes na balança   corrente. Nos países ditos periféricos, a melhoria nos défices  da balança corrente é contudo pequena.

1. Introdução

Foram introduzidas consideráveis  medidas de consolidação orçamental nos países europeus nos últimos anos, e embora seja  esperado que o ritmo de consolidação venha a  abrandar, muitos países continuarão a ter que fazer  mais consolidações num  futuro próximo. Os países da periferia altamente endividados foram forçados a um largo leque de medidas de austeridade, tendo perdido o acesso aos mercados financeiros e enfrentaram o risco de que um ritmo mais lento de consolidação levantaria temores de default soberano, com consequências económicas possivelmente ainda piores. No entanto, o impacto das medidas de austeridade no crescimento continua a ser uma grande preocupação. O processo de desalavancagem pública coincidiu com a desalavancagem do sector privado o que intensificou ainda mais  a crise. Os multiplicadores orçamentais  são maiores na actual conjuntura do que em tempos normais, devido à  forte restrição financeira e ao facto de que as taxas de juro estão limitadas no seu limite inferior em zero. Os efeitos sobre o PIB  também são significativamente maiores quando as consolidações ocorrem  em simultâneo como foi o que aconteceu , o que, por seu lado, levou a que os efeitos de repercussão tenham sido  significativos em toda a zona euro. Isto por sua vez conduziu à situação de uma maior diferenciação e à aplicação de  medidas temporárias  de estímulo em países que não enfrentam a pressão dos mercados financeiros.

Neste trabalho faz-se  uma avaliação baseada no modelo do impacto macroeconómico das consolidações nos países periféricos e nos países ditos centrais da zona euro nos últimos três anos,  de  2011 a 2013. Nele se  usa o modelo QUEST  da Comissão e consideram-se  7 países separadamente: Alemanha, França, Itália, Espanha, Irlanda, Portugal e Grécia e os restantes países da zona como sendo,  de forma agregada, um só país. No presente trabalho analisa-se especialmente os efeitos de repercussão entre os países e mostra-se  que estes podem ser grandes. Nos cenários analisados  assume-se que  as condições de crise predominam  para uma grande  parte das famílias que estão perante mais  restrições de liquidez do que em tempos ditos ‘normais’ – estabelecido como conjunto metade das famílias  em oposição a 0.3-0.4 estimado ao longo de períodos passados – e em que as taxas de juros estão limitadas pelo seu limite inferior que é zero e para um período de duração de  4 anos. A primeira seção mostra como a composição da consolidação é importante, com multiplicadores de maior impacto para as consolidações feitas a partir da despesa (o que é ilustrado  para o caso de Espanha). Nas seções seguintes  então  estende-se  a análise para outros países e avaliam-se  as repercussões de consolidações simultâneas, com base nas alterações de saldos primários estruturais no período que vai de  2011 a 2013. Como faltam informações detalhadas sobre a composição exacta da consolidações, presume-se que estas em termos globais foram proporcionalmente equilibradas. Distinguem-se os diferentes canais dos efeitos de  repercussão. Os canais que estão relacionados com os efeitos sobre a procura e a competitividade  reforçam os efeitos negativos do PIB.

O contágio dos spreads de risco pode ainda reforçar mais os  efeitos de repercussão negativos. No caso de sucessivas consolidações, a relação dívida / PIB inicialmente aumenta e só começa a declinar nos anos posteriores, mas dada a dimensão da consolidação estas que caem mais tarde são  substanciais. O aumento nos primeiros anos conduz também no modelo, em  que se assume a miopia dos mercados financeiros, a um aumento do prémio de risco soberano, embora pequeno. Se presumirmos o contágio destes spreads de risco soberano, os efeitos negativos sobre o PIB são ainda maiores. A última secção analisa os efeitos de um estímulo temporário na Alemanha e noutros Estados-Membros de notação AAA  pertencentes ao núcleo central  e mostramos que  as repercussões são positivas para a periferia.

(continua)
Exit mobile version