Em pé (da esquerda para a direita): Daniel Completo, António Silva Lopes e Fátima Valido; Sentados (da esquerda para a direita): João Cavadinhas e António Prata.
Fundada em finais de 1983 por Vítor Reino (oriundo do grupo Almanaque) e
outros nove músicos, a Ronda dos Quatro Caminhos (http://www.rondadosquatrocaminhos.pt/), uns
dos grupos de referência da música tradicional portuguesa, completou este ano
três décadas de existência. Não contando com as compilações, a discografia da
Ronda compreende, até à data, dez álbuns de estúdio e três ao vivo.
O blogue “A Nossa Rádio”, em reconhecimento do muito que a
Ronda dos Quatro Caminhos fez no domínio da recriação, valorização e divulgação
do nosso cancioneiro tradicional, aproveita a efeméride para revisitar a sua
valiosa discografia, seguindo o fio do tempo, desde o primeiro álbum
(“Ronda dos Quatro Caminhos”, 1984) até ao mais recente
(“Sulitânia”, 2007).
É uma amostra inevitavelmente parcelar, dada a extensão do repertório,
mas bem exemplificativa da excelente qualidade do trabalho realizado pelo grupo
e do quão incompreensível e deveras criminosa tem sido a sua ocultação por
parte de quem gere (e aprova) a ‘playlist’ da Antena 1, a tal que tem a
obrigação de «promover a divulgação da música de autores portugueses, bem como
dos seus intérpretes e compositores, comprometendo-se a inserir na programação
uma percentagem mínima de 60% de música de autores portugueses e de expressão
portuguesa» [cláusula 7.ª, 2.a) do Contrato de Concessão do Serviço
Público de Radiodifusão Sonora].
Chula Velha
Letra e música: Popular (Ponte da Barca, Minho)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP “Ronda dos Quatro
Caminhos”, Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)
[instrumental]
– Se és galo ribana a crista,
Se és frango larga a penuge!
Se vens p’ra cantar comigo,
Ata os sapatos e fuge!
(Salta p’ra o terreiro se tens goela!
Arrebita-me essa crista!)
– Tenho um saco de cantigas
Inda mai-l’um guardanapo.
Se isto vai com desafio
E vou e desato o saco!
(Aguenta-te lá com esta esta!
Vamos embora!)
– Esta moda bem cantada,
Bailadinha como é,
Faz desengonçar as velhas
Do canto da chaminé.
(E arrepipa-me nesse bombo!)
– Ó Chula, ó velha Chula,
No domingo vou-te esp’rar.
Quer de noite quer de dia
A chula há-de se dançar!
(Ai, há-de sim senhor!)
[instrumental]
(Puxa agora p’ra acabar!)
[instrumental]
* Instrumentos: duas violas, viola braguesa, dois cavaquinhos, dois
violinos, baixo acústico e bombo
Nota: «A chula constitui, sem sombra de dúvida, uma das mais antigas e
representativas danças populares portuguesas, possuindo contornos específicos
que lhe conferem uma individualidade bem definida e justificam, de certa forma,
a opinião segundo a qual se trata de uma das mais autênticas e características
canções bailadas do nosso país. Dança tipicamente nortenha, baila-se do Minho à
Beira Alta setentrional, ainda que com variações sensíveis na coreografia e
respectivo acompanhamento instrumental.
Frequentemente executado ao desafio como no exemplo presente, a sua
estrutura própria e pulsação particular relacionam-se intimamente com todo o
enquadramento musical, essencialmente caracterizado pela inclusão de um refrão
ou interlúdio unicamente instrumental, que funciona como elemento de separação
entre as intervenções dos cantadores.
A “Chula Velha”, que escolhemos para abrir este disco,
salienta-se pela vivacidade e graciosidade invulgares da sua melodia,
apresentando um raro e curioso recorte rítmico. A parte instrumental que a
acompanhava perdeu-se por completo, razão pela qual procurámos, com base nos
poucos elementos conhecidos e na nossa própria intuição pessoal, devolver-lhe
toda a riqueza e colorido de conjunto que decerto possuía, introduzindo-lhe um
refrão e uma linha musical autónoma a cargo de dois violinos, que empregámos à
semelhança das antigas rabecas chuleiras.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro
Caminhos)