Selecção, tradução, organização e introdução por Júlio Marques Mota
Pensar diferente, impactos humanitários da crise económica na Europa
Um relatório da Cruz Vermelha Internacional e do Crescente Vermelho (excertos)
PARTE VI
(CONTINUAÇÃO)
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Segunda tendência:
The new poor Spiralling down into poverty
Os novos pobres caem numa espiral descendente na situação de pobreza
Foi uma notícia a nível mundial e um despertar para a situação de crise quando em 2012, a Cruz Vermelha espanhola anunciou que o dinheiro arrecadado durante o Dia da Cruz Vermelha iria ajudar aqueles que são fortemente atingidos pela crise – mas agora em Espanha. Os donativos seriam utilizados a ajudar o número crescente de pobres que já tinha atingido os 5 milhões de pessoas, tanto quanto a população da Noruega ou da Escócia.
Foi também uma grande caixa nos media internacionais quando estes falaram sobre o número crescente de homens e mulheres da classe média italiana que agora viviam em reboques, caravanas, em instituições para os sem domicílio ou nas ruas, depois de divórcios e a não serem capazes de pagar conjuntamente para a ajuda das crianças a viverem com o outro cônjugue e para uma segunda casa para si-mesmo. E foi uma notícia preocupante quando em Julho de 2013, a BBC mostrou alguns dos efeitos dos cortes nos serviços de saúde na Grécia, deixando assim mais trabalho para as organizações de assistência social, instituições de caridade e dos voluntários e para os médicos apelidados de Robim dos Bosques (ver a tendência 3).
No entanto, não é só nos maiores países do Sul da Europa que a classe média está a sentir os efeitos desta crise . Na verdade, um dos resultados mais surpreendentes e perturbadores do levantamento das respostas das organizações nacionais da Cruz Vermelha à crise económica é o aumento na frequência das solicitações de novos grupos de pessoas pobres e vulneráveis na Europa assim como o grande número de pessoas da classe média que parecem ter entrado numa espiral descende atiradas para a situação de pobreza.
Muitos dos novos pedidos de assistência vêm de “trabalhadores pobres”, definidos como pessoas que trabalham mais do que metade do ano e ganham menos de 60 por cento do rendimento mediano nacional. Por exemplo, 25 por cento das pessoas que estão a receber assistência social da Cruz Vermelha francesa estão ainda a trabalhar (ou são pensionistas com algum rendimento).
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“Durante os anos 90 não dispusemos duma classe média devido à guerra, às sanções e ainda por outras questões. Depois da guerra esta surgiu e cresceu, mas agora com a crise económica, a classe média está em sofrimento e a reduzir-se novamente”. Ljubomir Miladinovic, Head of International Department, Cruz Vermelha da Sérvia |
O emprego já não é uma garantia de confiança para a prevenção de situações de pobreza. Em 2011, era cerca de 8,9 por cento das pessoas com empregos na UE que vivia abaixo da linha de pobreza, de acordo com o Eurostat.
Os novos pobres
Outros novos grupos de pessoas vulneráveis vêm de pais divorciados, de pais celibatários a estudantes e famílias com crianças pequenas, vêm de pessoas que perderam o seu emprego, as suas pequenas ou médias empresas e vêm igualmente de famílias onde apenas um dos pais está a trabalhar. Todos estes grupos são severamente afectados pela erosão fiscal – em que a inflação é superior aos aumentos de salário.
Muitas das organizações nacionais da Cruz Vermelha nos Balcãs, bem como em França, Itália e Portugal estão a verificar que um novo tipo de pessoas está a pedir assistência – famílias de gente que trabalha e que não podem cobrir todas as suas despesas básicas até ao final do mês e que se debatem com o seguinte dilema – ou compram comida ou pagam o aluguer da sua habitação e os serviços que a esta estão associados, água, luz, e outros serviços públicos. Mesmo na Alemanha, eram quase 600.000 os trabalhadores que tiveram de pedir subsídios adicionais para pagarem as suas contas, em Agosto de 2012.
A erosão fiscal está a provocar sérios desafios para muita gente. Os preços dos bens e serviços estão a aumentar mais do que os salários, sobretudo nos bens alimentares e na energia. Em Espanha, os preços da energia subiram estrondosamente em cerca de 50 por cento nos últimos anos.
A classe média a diminuir
Embora muitas famílias de classe média controlem quotidianamente as suas despesas, elas vivem sem poupanças, sem mecanismos de protecção face a despesas inesperadas. Na Hungria, há quase 350 mil pessoas sem emprego ou benefícios sociais, e mais de 80 por cento da classe média não tem nenhuma poupança significativa para responderem a despesas imprevistas, de acordo com um estudo recente sobre contas bancárias, feito por PwC Hungria.
Na Roménia, 20 por cento da população foi classificada como classe média em 2008. Hoje, o número desceu para apenas cerca de 10 por cento, o mesmo se passando na Croácia e na Sérvia.
Um estudo da Fundação Bertelsmann publicado em Dezembro de 2012 mostrou que a classe média alemã diminuiu de 65 por cento da população em 1997 para cerca de 58 por cento em 2012. São cerca de 5,5 milhões de alemães que perderam o seu estatuto de classe média e que estão agora classificados como assalariados de baixos rendimentos. Durante o mesmo período de tempo, foram cerca de 500.000 mil os alemães que se juntaram às filas de gente com elevados rendimentos.
Muitas das famílias da classe média estão na situação de vulnerabilidade. As suas economias baseiam-se muitas vezes no facto de haver duas pessoas do agregado familiar que estão a ter emprego. Um ou os dois cônjuges a serem despedidos é uma situação que pode levar a que uma família inteira fique de joelhos numa questão de semanas, especialmente se não têm quaisquer poupanças amealhadas . Associado a esta situação aparecem frequentemente problemas psicossociais (ver capítulo 3) assim como a perda de estatuto social. Os relatórios das diferentes Cruz Vermelha nacionais e das Sociedades do Crescente Vermelho dão-nos conta de que os novos pobres têm vergonha de falar aos seus amigos ou aos seus familiares sobre a sua situação, de que pessoas divorciadas têm vergonha em convidar os seus filhos para passar uns tempos com eles sobretudo se vivem em albergues ou reboques. Este é um tipo de exclusão social auto-imposta.
Durante a crise bancária em Chipre no início de 2013, a Cruz Vermelha local passou por uma situação embaraçosa de ver pessoas a chegarem às suas instalações e aos seus pontos de distribuição em carros caros e a pedirem ajuda. As pessoas que de repente perderam tudo, ou pelo menos perderam o acesso a tudo o que tinham deixado nas suas contas bancárias estavam agora incapazes de comprar comida ou de pagarem todas as suas contas.
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Existem novos tipos de pedidos dos beneficiários em relação a pagarem as suas contas mensais, para a ajuda alimentar e para a prestação de serviços de transporte social para pessoas idosas. Cruz Vermelha Portuguesa |
(continua)
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Para ler a parte V deste trabalho sobre o relatório da IFRC, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
