III
Evidentemente, se se adoptassem estas medidas, já uma pobre limousine de luxo ou um coupé de ville aux fines herbes – são aqueles que transportam flores e avencas, além dos fetos proprietários – poderiam sair à rua sem correr o risco de voltarem para a recolha com o verniz estourado ou a carrosserie arrombada. Mas não. Como se trata de uma ideia prática e razoável, ninguém nos atenderá e continuaremos a ver por todos os cantos o triste espectáculo dos automóveis terem que andar a fugir por cima dos passeios para não se encontrarem com os imprudentes e mal intencionados que atravessam constantemente e em passo de procissão o asfalto por onde Citroën, Delage, Rolls Royce e Tutti quanti – a célebre marca italiana – deslizam tranquilamente à noventa à hora.
Continuaremos também a encontrar, nas paragens dos carros, pessoas que conhecemos em tempos cheias de saúde e da alegria dos vinte e cinco anos, hoje já decrépitas, com barbas nevadas arrastando pelo chão e cogumelos dentro do nariz e dos ouvidos. Ouvir-lhes-emos contar, desoladas, que os anos têm decorrido, as estações têm-se sucedido, têm caído e subido governos, têm estalado e abortado revoluções, têm sido dadas por acertadas as contas dos Transportes Marítimos, e por concluídos os pavilhões portugueses da Exposição do Rio. Tudo tem acontecido: o imprevisto e o impossível. Só não tem passado um carro com lugar para aquele onde o paciente queria ir.
E quando, mercê dum destes acasos da fortuna, que, aproveitados com audácia, nos conduzem a tudo e a mais alguma coisa, conseguirmos trepar alguma vez para a plataforma de um eléctrico, continuaremos a ouvir perpetuamente extravagantes discussões, destas que fazem crescer no peito um ódio feroz pelo nosso semelhante.
Raras vezes muito raras, por lá colheremos uma réstia de bom humor, como sucedeu uma tarde destas, no Rossio, defronte da Brasileira, e dentro dum carro para o Rio de Janeiro.
O condutor tinha, como sempre, que mandar descer alguém e esse alguém era Edgar Plantier, que subira pouco antes.
Duas ou três vezes o funcionário da companhia soltou o seu eterno:
– O último cavalheiro que subiu para cima tem que descer para baixo.
E, como Edgar Plantier nem pestanejasse, disposto a divertir alguns amigos que tinha na plataforma, o condutor foi chamar um polícia.
O guarda chegou e, conseguindo trepar com mil dificuldades para o carro, decretou lançando em volta um olhar cruel:
– Ora então quem foi o último a subir tem que ser o primeiro a descer.
– Nesse caso desça o meu amigo, concluiu o Edgar, batendo-lhe amavelmente no ombro. Toda a gente aqui é testemunha que o senhor subiu agora mesmo…
17 de Dezembro de 1922

