A imprensa e os editores europeus encontram no ano de 2014 e no simbolismo que as pessoas atribuem a datas de número redondo um bom pretexto para lançar, em abundância, documentos, textos e opiniões sobre a primeira guerra mundial. Têm em comum relatar o heroísmo de nacionais, naquilo que foi uma tragédia mortífera internacional.
As páginas nacionais de cada país completam os atos internacionais, feitos pelos seus, com outros, os fait divers, que por serem ‘divers’ não deixam de constituir dramas locais. Não havendo em Portugal casas reais com escândalos financeiros ou com bebés para criar e batizar, nem com princesas para casar, nem presidentes que mudam de parceiro – na sua vida privada, não na sua vida política – a imprensa encontrou no divertimento primário – que tratando-se de crianças, se chama bullying, e no de jovens adultos infantis, se chama praxes – um interessante filão, que já se prolonga há algumas semanas.
Os dois assuntos merecem alguma atenção quando pensar a escola, a relação pedagógica, ou para utilizar um termo da sociologia da educação, as formas escolares de relações sociais. Revelam claramente o drama e a pobreza que constitui o paradigma instrucional hegemonicamente presente na escola e na sociedade.
Bem vistas as coisas, as dificuldades para o estudo e a criação de conhecimento no âmbito das ciências humanas, que as emoções nacionalistas levantam em redor dos100 anos do início de que ficou conhecido como ‘a grande guerra’, têm o seu paralelo com as criadas, pelas emoções locais, em torno do estudo das praxes estudantis em Portugal.
Em proporções diferentes naturalmente.
Se as trincheiras que os poderosos da Europa, através da sua hierarquia militar, mandaram cavar na lama da Flandres belga e francesa, para conseguir uma posição de força em relação às suas disputas coloniais em África, são atualmente conhecidas por um mais alargado público europeu, só uns tantos locais Portugueses sabem que se faz, ainda hoje, aterrar caloiros na lama do quintal de uma qualquer obscura universidade privada ou pública neste país, por ordem de uns patéticos figurantes que perpetuam a validade da análise que Foucault faz da escola, no livro Vigiar e Punir.
Porém, por detrás dos dois fenómenos existe uma mesma falha educacional perturbadora.
Para o primeiro gostava de invocar uma conversa com o meu avô. Ele nasceu em 1893 e morreu em 1968. Passou por dois conflitos armados, na Flandres belga, mas enquanto resumia que o segundo, entre 1939 e 1945 foi para ele um ato de “brincar ao soldadinho”, o primeiro, pela escassez de palavras que lhe atribuía, mexeu com ele durante toda a sua vida. Desta “grande guerra”, ficou-me uma aula privada com um toque de pedagogia participada, que transformaram conversas presenciais que teve comigo, algumas vezes, em conversas virtuais, já depois dele morrer, aquando da reflexão em torno da escola, da educação e da cultura produzida pelo ser humano.
Estava eu na primeira escola, quando inevitavelmente, nas aulas, me foram ensinados através da história na sua versão estandardizada para o Estado Belga, os grandes feitos dos heróis belgas, desde o tempo dos Romanos – uns 1800 anos antes de Bélgica sequer existir – até a bravura do rei belga e os seus bravos soldados contra os terríveis alemães, nas duas guerras, ‘o inimigo’ que ocupou a pátria – o que, no que se refere ao segundo rei, não foi assim tão bem conseguido, mas isto não se ensinava na primeira escola.
Quando o meu avô me ouviu repetir a lição, disse ao meu pai: “Temos que dar uma voltinha com o rapaz”. Levaram-me para um dos muitos cemitérios militares, que se encontram em toda a Flandres e o noroeste da França, desde o rio IJzer até o rio Somme. Este fica em Vladslo e é alemão: um grande relvado quadrado, circundado de árvores e arbustos. Num dos lados do quadrado, ao centro, o portão de entrada, com dois pequenos pavilhões, a flanquear a grelha metálica, onde são guardados os livros de registo para os visitantes. Do lado oposto do portão, também ao centro, duas estátuas, que, na altura, me pareciam enormes, de granito cinzento: uma mulher e um homem, ajoelhados. O rosto da mulher exprime um sentimento de eterna tristeza, os olhos inclinados para o chão. O homem com a boca cerrada, os olhos tristes, cruza os braços como se para segurar o próprio corpo. Atravessámos o cemitério até chegar frente às estátuas. Aos seus pés, quase no rebordo da relva, duas pequenas placas: “Lê,” disse-me o meu avô. Dois nomes, cada um com Kollwitz, no apelido. O meu avô apontou para a estátua da mãe. “Estas estátuas são da Kate Kollwitz. Ela era uma grande artista alemã. Os dois filhos dela tinham acabado de chegar às trincheiras. Talvez estive a alguns dezenas de metros deles. Morreram os dois aqui.” Retomamos caminho, de carro, até chegar a Ieper. Na porta de Menen, com o aspeto de arco de triunfo, listas e listas de nomes de soldados do Commonwealth que desapareceram para sempre na lama de Flandres, e dos quais fragmentos de ossos ainda regularmente aparecem nos campos e nos pastos. O meu avô deixou-me ler alguns destes nomes estranhos para mim: “Talvez um deles fez sair da espingarda a bala que matou um dos filhos da Kate Kollwitz. Quem sabe. Eles não souberam, por certo.” Ao pé da foz do rio IJzer, onde ele tinha estado entrincheirado meses afio, mostrou-me mais listas de pessoas mortas, num outro monumento triunfal. Mostrou-me nomes de jovens que tinha conhecido nas trincheiras, que estavam na escola superior ou na universidade, como ele, então com 20 anos, quando de repente tudo mudou. Foram obrigados a defender a fronteira do país, para depois fugir até este último recanto, e aguentar quase quatro anos. “Nenhum deles era herói. Morreram.” “E tu, avó?” “A bala que me era destinada nunca chegou a sair da fábrica.” Talvez tivesse sido destinada para a espingarda do filho de Kate Kollwitz, que não teve tempo para a disparar. Já tinha o meu avô morrido quando os meus pais me contavam outras histórias que ele quis partilhar com quem nunca esteve nas trincheiras. Como às vezes os soldados trocavam cigarros, da trincheira dos alemães para a trincheira dos belgas. Como havia momentos em que dos dois lados, à noite, se cantava. Como no dia a seguir, ao chegar a ordem de ataque, havia soldados que se recusavam a atacar. E que eram então logo mortos pelos seus superiores, com uma bala na nuca. Não se desobedece a uma ordem. Mesmo que ela seja absurda. Executa-se ou se é executado. O meu avô, como muitos outros, que não eram soldados de carreira, mas que tinham estado lá, durante tanto tempo, considerara muitos episódios, de conquista e reconquista de trincheiras, um absurdo. Depois de 1918, o movimento pacifista “Nunca mais guerra” advogava que a educação e o investimento na cultura eram primordiais para que “isso” não se repetisse. Muitos projetos de educação popular, como o Volkshogeschool (literalmente Escola Superior Popular), em vários países, procuravam alimentar esta ideia. Entretanto, a história mostrou-nos como a humilhação militar imposta pelos “aliados” ao que se tornará a Alemanha foi utilizada pelo nacional-socialismo para se sobrepor às aspirações que a Volkshogeschule alemã também tinha. Fomentou, escassos 20 anos depois, um novo período negro daquilo que George Steiner descreve em “No castelo do Barba Azul” como sendo a continuação da mesma guerra. Cem anos depois do início deste meio século escuro, continua-se a refletir pouco em conjunto. Pouco se avançou em direção a um projeto educacional que facilite a perceção dos fenómenos que levam a que alguns, sem outro objetivo do que a apropriação de bens materiais, decidam do destino mortal de muitos (como mais uma vez um recente relatório da Oxfam nos revela, mostrando o lado obsceno da acumulação da riqueza). Pelo contrário, proliferam em cada país, as obras que mostram como o papel dos seus heróis foi preponderante na absurdidade coletiva. Como se houvesse algo para festejar… Cem anos depois, deve haver muitas pessoas que fizeram uma análise convergente com aquela que fez o meu avô, já no início dos anos ’60. Cem anos depois continuam a ter dificuldade para se fazer ouvir por quem manipula sem escrúpulos o mundo e por quem, privado de meios educacionais para promover a própria conscientização, acolha a sua própria humilhação e se deixe manipular. E é aqui que o segundo fenómeno, local, das praxes em universidades portuguesas, provavelmente desconhecido na Europa, e certamente não da preocupação de muitos povos do mundo, se entrosa com o primeiro, mais global. Os ingredientes são os mesmos:
Vemos uma exigência de cega obediência a quem está no comando, utilizando as mesmas fardas e os mesmos símbolos de quem está no comando como em duas das instituições disciplinadoras de Foucault: a instrução militar e a igreja;
Seres humanos são humilhados por quem momentaneamente exerce o poder, para repetir a humilhação de outros, logo que ganha poder;
Existe um completo despudor e uma total falta de consciência humana de quem se arroga o poder sobre o destino de outros;
Assistimos ao enviesamento do “Volkshogeschool” onde a cadeia hierárquica, em vez de discutir a abolição da absurdidade, discute as regras pelas quais a absurdidade se deve deixar conduzir.
O projeto humano que consiste em aumentar o conhecimento, através da educação e da partilha cultural, na interação com o outro, baseado no paradigma de comunicação, esclarecedor, e não no paradigma de instrução, obscurizante, só lentamente e contrariado chegou à Europa. Sem sabermos de momento se terá terreno para se desenvolver. Em muitas das escolas superiores de Portugal este paradigma de comunicação ainda nem sequer se manifestou. Felizmente há quem, na imprensa nacional, para tal alerte. Como o fizeram José Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente na edição do jornal O Público de 25 de Janeiro de 2014.