A GALIZA COMO TAREFA – Identidades – Ernesto V. Souza

Alfred Kubin (1877-1959) War 1901-02

Uma das grandes funções dos Estados modernos foi a criação, conformação e gestão da Identidade. Suporte da ideia de nação, o conceito identitário decorreu paralelo ao de cidadania, representação e igualdade.

Associado a camadas sociais, a classes ou grupos locais, reivindicativos ou protetores de interesses comuns, a identidade nacional foi-se levantando, mesmo violentamente quando preciso, sobre escolha favorável de lugares de memória, símbolos, tradições e restos anteriores, imitações concorrentes ao que se fazia ou fizera noutros cenários paralelos, ou montando sobre imaginários construídos ou reconstruídos em programas de imprensa, história, teatro, música ou literaturas nacionais.

A identidade nacional, custodiada nos arquivos, nos museus, nas grandes bibliotecas, nas academias, incutida na escola, como cultura e pátria,  espalhada na imprensa, no folclore, pela história, a música e a língua, fixada nos lugares de memória, que adquiriram uma função central de símbolos e serviram uma e outra vez, para reforço do passaporte ou para reclamar a possibilidade de novos estados ou regiões autónomas diferenciadas.

Pouco se necessita uma nação quando as pessoas têm passaporte, nesse documento, já vai tudo o necessário. Mas o imaginário da nação é uma força poderosa, unificadora, coesiva que, podendo, todos os Estados gostam de ter.

O “nacionalismo” é assunto complexo e um post breve e gizado numas linhas a publicar na quinta, mal pode explicar o que uma enciclopédia não poderia. Poucas linhas não dá para se fazer entender, não vão alem de generalizações, sínteses e tanto mais quando não se sabe de onde vem quem escreve, ou onde está o nosso interlocutor.

Portugal existe há muito. É uma realidade histórica e política inquestionável que pode dar-se ao luxo de ter nacionalismos diversos ou correntes de patriotismo concorrentes, desde o saudoso monárquico ultrapassado até o republicanismo de avançada, laico e à francesa, passando por todas as possibilidades do catálogo. Acho que nisto, o debate fica claro em todo momento, porque todo o mundo sabe se reconhecer, defender e debater onde se encontra.

Em Espanha, uma realidade que aspira a “inquestionada” mas muito problemática, a divisão é maior, os nacionalismos com histórias alternativas e fases diversas são concorrentes desde o século XIX, num longo debate, contra um modelo jacobino centralista. O Estado espanhol, o seu projeto de nação única ou delegada, não convence a muitos; os cidadãos e os democratas, precisam de imaginar de novo, de refletir uma e outra vez, de recriar pelas margens que se deixam, em apêndices desdobráveis e imaginários, outras formas: Catalunha, Euzkadi, representam as formas mais conhecidas de alternativas.

Mas e a Galiza? ou, e na Galiza? Ainda está pendente mesmo definir essa Galiza. É disso que falo. A minha perplexidade talvez seja a minha identidade.

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