Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 184 – por Manuela Degerine
carlosloures
Retrato de um nome
Ei-la com a franja, a pele clara, a voz de contralto, as mãos pequenas e mais dez quilos do que gostava… Não fuma. Tem trinta e oito anos. É divorciada, mãe de Félix, dez anos, de Alice, doze anos. Estudou sociologia. Trabalha na biblioteca da Penha de França – pouco ganha mas gosta do que faz. Como tantas mulheres, luta contra o tempo, o emprego dela, os trabalhos de casa dos filhos, as reuniões na escola, as reuniões de condomínio, as refeições, as limpezas, o cancro do pai, as primeiras rugas, os ensaios do coro, as tapeçarias, o ginásio onde se inscreve e não consegue ir… Passa os serões, passa os fins de semana, passa as férias na companhia dos filhos e por vezes também na companhia dos pais. (Aproveita para ler pela noite fora, aproveita para escrever um diário; a sua maneira de ludibriar o tempo.) Eufémia costuma resumir o presente nesta frase: muita solidão e muita imaginação. Gosta de pensar que a solidão é transitória, encontrará um amante, um cúmplice, um companheiro… Quando se sentir preparada. Gosta de pensar que a imaginação nos preserva da pobreza como da tristeza. Nas férias, nos fins-de-semana cria – com têxteis reciclados – tapeçarias que vende, que pendura nas casas dos amigos, que expõe como “Arte ao Vento”…
O nome não é alheio à educação que os pais lhe deram nem à força que conseguiram transmitir-lhe. Preferia chamar-se Catarina e que o Alentejo a visse nascer, mas não, eles preferiram Eufémia e a maternidade Alfredo da Costa. Na adolescência o nome chegou a parecer-lhe obsceno. “Eu Fémia”? Uma colega escreveu-lhe um postal começando por “Fémia” – nunca mais lhe falou. Foi o último incidente provocado pelo nome, trazer em si uma fêmia deixou há muito de a incomodar. Explica aos filhos:
– É o nome de uma heroína, de uma combatente…
Os pais, ele operário (agora reformado), ela caixeira (agora desempregada), respeitam em cada fruto, em cada papel, em cada colher, em cada par de sapatos o trabalho dos camponeses, dos mineiros, dos operários, dos artesãos que o produziram ou fabricaram. Eufémia compreende que a sociedade de consumo não é sustentável, quer que os filhos aprendam a pensar antes de comprar, quer mostrar-lhes que há muita vida, muitos risos, muita imaginação, muitas sensações, muitas descobertas fora dos centros comerciais; quer que sejam – como ela – livres de voar. Inventa tapeçarias para o vento que, mesmo em tempo de crise, as lojas, as galerias lhe compram, mas ela cede com uma cláusula: poder recuperá-las caso os compradores delas se cansem. Não, a Terra não é uma lixeira, sim, o trabalho pode ter valor. Eufémia não ignora que os pais quiseram do nome a sua luz.