Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 190 – por Manuela Degerine
carlosloures
Cultura austríaca
Em Lires há uma casa de pasto e, como Franz nunca traz farnel, hossana nos caminhos, planeio a minha alforria. Enquanto ele almoça, ali obrigatoriamente, por não haver outras tascas, poderei acelerar o passo – e nenhum homem dos Alpes me conseguirá depois apanhar. Restam-me portanto duas horas de companhia obrigatória. A esperança ajuda a sobreviver por isso, não podendo de imediato escapar, atravesso o infortúnio com bom humor.
Para encurtar os quilómetros, ponho-me a cantar ópera. “Hoje ainda não chove água, esta praia tem areia, caminhamos com os pés: maravilhas dos portentos. Se um elefante incomoda muita gente: ais! Perto de Lires incomoda muito mais.” O canto melhora bastante o texto… Mas lança na perplexidade o autor do libreto, que não parece apreciar a ópera contemporânea. (Que raio de companhia, pergunta às suas botas; nem tu podes imaginar, divirto-me a supor.) António Vitorino de Almeida não garante que os austríacos são melómanos? Então só ouvem Mozart? E valsas de Strauss? O gosto pela música não passará de um estereótipo?
Estas interessantes interrogações conduzem-me à lista do que conheço da Áustria e dos seus indígenas. A cultura geral é, na comum definição, aquilo de que nos lembramos depois de esquecermos o resto. Ora que parte da minha cultura é austríaca? Para além das imagens que ficaram de uma viagem: Graz, Viena, Klagenfurt, Salzburgo. (Uma Europa que não põe vidros duplos nas janelas mas duplas janelas nas casas.) Para além dos apfelstrudel (demasiado doces). Para além do concerto de Natal na televisão, inseparável das filhós, das prendas e do presépio. (Na minha família não havia missa do galo, era Natal porque – entre outros indícios – víamos o concerto de Viena.) Que elementos austríacos contribuíram para eu ser quem sou?