Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 30 – De Valença a Mós. Por Manuela Degerine.

 Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

        Sinto, quando calço as botas, uma sensação dolorosa mas consigo, a pouco e pouco, esquecer-me das bolhas.


       Lena, ontem incapaz de transportar a mochila, mostra-se de novo em plena forma porém, feitas as contas, os suecos informam-me que, daqui em diante, convém serem mais lentos, para não chegarem cedo demais a Santiago, onde apanham o avião do regresso: embora com muita pena, dormem hoje no Porrinho. Despedimo-nos portanto mais uma vez. Eu tentarei chegar a Mós: vinte e seis quilómetros de caminhada.


         Faço compras, pão, avelãs, chouriço, bananas, chocolate, alperces secos, o necessário para me sustentar até ao Porrinho, mais um pouco, pois as lojas estarão fechadas quando eu passar e, em Mós, à beira do caminho, não me recordo de ter visto comércio, saio por conseguinte de Valença com a mochila muito pesada, atravessando a bela ponte de ferro por cima do rio Minho. Chego a Vigo às nove horas (oito em Portugal).


       Entro na catedral. Da sombra surge um homem que, após um instante de hesitação, compreendo ser quem vende os bilhetes para a visita do museu. Inquire se quero que me carimbe a credencial. Entrego-lha. Ele carimba-a. Agradeço. Começo a mirar o monumento quando sinto tocar no ombro. O homem pergunta se desejo que me tire uma fotografia. Por que não? Passo-lhe a máquina fotográfica, o homem tira-me a fotografia. Volto a agradecer. Dou vários passos na direcção do altar, olividando a presença do homem, vagamente situado atrás da secretária, sento-me a sentir o ambiente e a descansar as pernas, quando de súbito oiço:


          – Não queres tirar uma comigo?


         A puerilidade turística, penso eu. Levanto-me com esforço. Por que não ainda, só para ser amável? Mas o homem aproxima-se de maneira exagerada.

 

          – É melhor tirares o chapéu…


          Saio dali para fora. Palmilho eu mais de oitocentos quilómetros entre Lisboa e Santiago de Compostela, entre Santarém e Caxarias, entre o Porto e Tui, vejo tanto rosto estupefacto, oiço tanta exclamação, vai sozinha, não tem medo, não achas arriscado, pior, oiço tantos silêncios, para ser afinal incomodada pela primeira vez por um semi-padre na catedral de Tui! 

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