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CONTOS & CRÓNICAS – “Maria Bertília” – por Margarida Ruivaco

 

Maria Bertília morreu de boca aberta e com os olhos esbugalhados. Até ao último minuto acreditou que a filha voltasse atrás. Até ao último segundo, esperou ouvir a porta abrir-se. Mas não ouviu. Nem nunca pensou em arrepender-se.

A história repetia-se há anos. A mãe gritava com a filha, a filha gritava com a mãe, a mãe batia na filha, a filha batia na mãe, a mãe bebia, a filha bebia, gritavam as duas, batiam as duas, a filha saía de casa para beber ainda mais e voltava noite dentro a cambalear, a bater portas, a ralhar com o cão, e amanhã era igual.

Os vizinhos, de início, acharam estranho, e durante os primeiros quinze anos, incomodavam-se com o berreiro, batiam à porta, ralhavam, chamavam a polícia, ameaçam, faziam queixas. Um dia fartaram-se de tanto banzé, tanto vinho, tanta inércia das autoridades, que votaram ao esquecimento aquelas almas penadas. Os barulhos, os gritos, os berros deixaram  de causar efeito nos ouvidos, no cérebro ou no coração. Passaram a ruído de fundo a que todos se habituaram, porque parecia que sempre tinha estado lá.

Quando a filha saiu, na segunda-feira à noite, já a velha se contorcia com dores nos rins há dias, a moínha ao fundo das costa, que também podia ser devido à queda da cadeira. De cansaço, adormeceu no canto do sofá, embrulhada em mantas, com o aquecedor aos pés. A filha, a cuidadora, afinal, havia de chegar, podre de bêbada, mas havia de chegar.

Acordou terça-feira de madrugada, não ouviu barulho, nem viu o cão e não conseguiu levantar-se do sofá. Uma rigidez ao acordar, o costume, agravada pela dor nos rins. Chamou pela filha, que não veio acudi-la, e ali se aliviou, entre dores,  guinadas  e calor fétido. Sentiu-se exausta, agastada, recostou-se e ali ficou…

Ao longo do dia, pelo canto do olho, pela janela da sala, foi vendo gente a entrar e a sair, carros a partir e a estacionar, o carteiro às onze, e foi chamando, e gritando, mas ninguém veio. A impossibilidade de andar, a sede, as dores mantiveram-na sentada no canto do sofá. Dormia, acordava, gritava, apagava-se, notando já a ausência da medicação para tudo e mais alguma coisa, aperitivo de todas as refeições do dia. Chegou a noite, julgou ter feito confusão, que ainda era segunda e a filha estaria prestes a voltar, de rojo pelas paredes e pelo chão, mas não deixaria, ainda assim, de a levantar, de lavá-la e deitá-la, mesmo aos berros e a cambalear. Não era assim tantas vezes?

Quarta-feira amanheceu chuvosa, mais escura, e Bertília teve a certeza que era outro dia, mesmo não podendo precisar qual. Do lamaçal de imundices onde se sentada, o cheiro amoniacal deixava-a atordoada, nauseada e não sentia fome. Mas a boca colava, a placa fermentava e podia sentir  um cheiro podre e adocicado no seu bafo aflito.

Chamou e esperou, gritou e esperou, dormiu e esperou, doeu-lhe e desesperou.

E já era quinta-feira, e na sexta foi igual. Esqueceu-se. O cão veio raspar as patas do lado de fora  da janela. Olhou-o com um ar mortiço, e pensou que era a filha a chegar. Esperou, cada vez esperando mais devagar, devagar, até ser vencida, a olhar de esguelha para o cão.

Nunca lhe passou pela cabeça que, no meio de tal tosga, a filha embrutecida tivesse perdido o norte, e caminhando em sentido contrário no meio da estrada por quilómetros, sem precalços, , tivesse apanhado uma panada tal de um camionista  apressado no seu serviço nocturno, que o corpo tenha voado para o mato na borda da estrada, e rolado por uma ribanceira. O homem nem a viu. Ainda parou o camião, avaliou a mossa no para-choques, pensou que fosse um cão vadio e seguiu viagem.

 

 

 

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