CONTOS & CRÓNICAS – “Maria do Perpétuo Socorro” – por Margarida Ruivaco

contos2 (2)

Estava fadada para ser assim. Filha única, tudo único, com uma mãe única e irrepetível, dotada de uma bolsa forrada.

A primeira coisa que não percebia era o nome. Será que estava programada, desde sempre para ser assim? Terá sido um desígnio dos mistérios insondáveis da deusa mãe? Tanto nome, tanta coisa que podia ter sido, e ali estava ela, a ser o perpétuo socorro da mãe.

A segunda coisa que não percebia era a conformação. Será que a sua educação tinha sido direccionada para a tornar cachorra? Teriam arrancado à força, depurado à nascença, o fio da vontade de se rebelar e dizer não em vos alta? O que sentia nunca era transmitido, tão pouco seria relevante.

Ter cinquenta anos e andar nisto, não parecia normal. Ter cinquenta anos, dos quais quarenta e sete sem pai nem mais ninguém, e nunca ter ido a lado nenhum sem ser de braço dado à mãe, começava a parecer ridículo. Cinquenta anos, nos dias de hoje, sem ter posto os pés numa escola, num emprego, sem nunca ter saido com uma amiga ( mas qual amiga, senhores?) era no mínimo estranho.

O despertador diário de há mais de três décadas, era um “socorro, Socorro!!”,  e ainda não conseguia diferenciar se a ordem de chamamento era um clamor de aflição, se um chamar só por chamar. Pelo que se levantava sempre de rompante, para se apresentar ao serviço, estremunhada, de roupão. E chegada ao quarto da mãe, podia descobrir que era só para saber se  estava aí, ou para ver se era dia, para saber que horas eram. Prua maldade, achava. Mas pronto, já que estava ali, e que se tinha lenatdo, bem podia começar a fazer isto, aquilo…e era aqui que a lista diária começava.

( no quarto da velha, para além das chaves da porta, o estores semi-abertos permitiam ver se havia luz na rua e um despertador com números gigantes mostrava as horas a vermelho)

Depois de tentar recuperar de um despertar sempre incerto num banho quente, de se arranjar modestamente (ainda que não dispensando os melhores cremes e maquilhagens, o enrolar cuidado do cabelo, a roupa discreta, mas de qualidade, nos melhores vinte minutos do dia, os que lhe eram concedidos), começava tudo de novo.

A voz da mãe repetia-lhe o nome, vezes sem fim, para a ajudar a levantar, a ajudar no banho, para lhe preparar e servir o pequeno almoço. Para fazer as camas, aspirar, lavar, cuidar da casa e da roupa, preparar refições, em rotinas de dias certos para a mínima tarefa.

A adstringência do sabonete perdia efeito, e todos os poros se abriam e suavam, enquanto se desfazia em tatefas, tantas absurdas !,  no palacete decadente na baixa da cidade.

Durante as manhãs ocupadas, a mãe recebia, num escritório recatado, secretárias e gestores das suas fábricas, gerindo e mantendo, à distância, um património invejável. Maria, única herdeira, não era tida nem achada.

A meio da tarde, depois da sesta retemperante da capataz, saíam de casa, de braço dado, uns dias  caminhando até à pastelaria da praça, outros dias rumando à cabeleireira de sempre, quase tão velha como a mãe, num salão rococó, num primeiro andar decrépito.

Outros dias faziam a ronda à mercearia, frutaria, talho e peixaria, sempre por esta ordem, com o táxi do sr. Vicente às ordens, sem hora de fim.

Uma vez por mês, a volta começava pela manhã, e parava-se, obrigatoriamente, mas melhores casa de moda da cidade, e se algum evento merecia mais atenção, o sr. Vicente era chamado a conduzir a parelha até Lisboa ou Coimbra, a moradas concretas, para se proceder à compra de um fato completo, ou de maravilhosos cortes de tecido, que a costureira iria transformar em peças únicas.

Socorro acompanhava a mãe para todo o lado, cumprimentando as amigas da senhora, participando das conversas, opininando sobre a qualidade do tecido ou brilho da loja.  Ainda assim, não conseguia deixar de se sentir como uma bengala de punho prateado, uma clutch que a mãe usava ou o baton que a senhora não dispensava antes de sair de casa.

Criada de servir pela menhã, acessório de fashionista pela tarde, terminava os dias desejando à mãe uma boa noite, e transfigurando-se de novo na mulher sozinha, de cinquenta anos, desejosa de se deitar numa cama quente.

Uma tarde, já dispensada de tarefas, a mãe chamou-a a escritório e apresentou-lhe António Cerqueira, o novo sócio nos seus negócios. Velho, como a mãe, viúvo, como a mãe. Foi informada que casariam daí a três semanas e que ficariam a viver nesta casa. Tomou conhecimento, assentiu e retirou-se para conferir a lista das compras de mercearia.

Só depois veio a perceber quem era a noiva. Encolheu os ombros. A mãe é que sabia.

Leave a Reply