A data de 23 de Fevereiro é marcada por acontecimentos opostos cujo rasto podemos encontrar na vida de hoje. No passado, faz hoje anos que se formou o Partido Nacional Fascista de Mussolini (1919) e faz 60 anos que foi criado, em Portugal, o Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, novo nome do Secretariado da Propaganda Nacional, na dependência directa de Oliveira Salazar. Por outro lado, foi quando saiu o primeiro número do jornal “A Batalha” (1919) de orientação anarquista e sindicalista, com tiragens de vários milhares e que viria a ser o órgão da Confederação Geral do Trabalho (CGT) criada em Setembro desse ano.
Na actualidade temos o Diário de Anne Frank com folhas a serem arrancadas em bibliotecas públicas municipais de Tóquio. Temos a sede da ONG SOS Racismo, dedicada à luta pela igualdade de direitos atacada por um grupo de extrema direita. Temos um tribunal suíço a dizer que o termo ‘porco estrangeiro’ “sujo candidato a asilo” é um insulto mas não viola lei antirracismo.
Temos os resultados de um estudo da British thinktank Demos (elaborado por políticos e académicos, analisando comportamentos de apoiantes online de movimentos de extrema-direita) que revelou que o radicalismo está a crescer em toda a Europa, através de uma nova geração de jovens que usa cada vez mais as redes online para aderir à causa nacionalista, com um forte sentimento contra os imigrantes e, especialmente em relação aos muçulmanos. Jamie Bartlett, o principal autor do estudo, alerta “Estamos numa encruzilhada da história europeia. Em cinco anos, ou iremos assistir a um aumento do ódio e da divisão da sociedade, incluindo o crescimento do ultra-nacionalismo, da xenofobia, da islamofobia e do anti-semitismo ou seremos capazes de contrariar esta horrível tendência”.
Eduardo Lourenço disse na 15.ª edição do Correntes d’Escritas, que parece que houve uma invasão por “uma espécie de vampiros”, que são quem controla o sistema inventado pela modernidade, vivendo-se agora um “apocalipse indireto” em “estado de guerra permanente”.
E aqui estabelecemos a ligação com Zeca Afonso, cujo falecimento ocorreu faz hoje 27 anos, depois de longo sofrimento. Nos seus “Vampiros” vemos o espelho da situação actual. Mas deixou-nos, também, o seu exemplo de luta, e com a suas canções a força e o caminho apontado:
“Não me obriguem/A vir para a rua/Gritar/Que é já tempo/D’embalar a trouxa/E zarpar”.
“O que faz falta é avisar a malta/O que faz falta/O que faz falta é dar poder a malta/ O que faz falta”.