Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
GOLPE “ PARTITOCRÁTICO “ EM ITALIA
Quando a esquerda italiana cria o seu próprio duce
Jean Bonnevey
Revista Metamag, de Fevereiro de 2014
Pode-se facilmente imaginar a indignação da imprensa internacional e dos políticos europeus sobre Silvio Berlusconi que se apropriou, através de um golpe de estado dentro de seu partido, do cargo de Presidente do Conselho Italiano. Todos teriam gritado em uníssono contra o regresso do fascismo. Pois bem, mas foi isto que aconteceu não com Berlusconi e o seu partido, foi o que aconteceu no interior do partido de esquerda que é actualmente dominante na Itália, um país onde se sucedem os chefes de governo mas em que não tem nenhuma legitimidade eleitoral.
Enrico Letta demitiu-se da Presidência do Conselho italiano na sexta-feira, 14 de Fevereiro. O Presidente do partido democrata Matteo Renzi deveria substituí-lo, tornando-se assim o terceiro chefe do governo não eleito pelos eleitores italianos em menos de quatro anos. Se a manobra funcionou, esta também precipitou a política italiana num redemoinho de vento que seria até há muito pouco tempo ainda verdadeiramente inconcebível. “Como é que vamos ainda explicar ao mundo o que está a acontecer dentro do nosso sistema político labiríntico” interroga-se a imprensa italiana. Nenhum dos dois presidentes do Conselho que sucederam a Berlusconi – de que toda a Europa desconfia agora – assumiu o cargo através de uma votação popular. Nem Mario Monti nem Enrico Letta. Nem Matteo Renzi, que é verdade foi eleito prefeito de Florença, mas não da Itália. A 8 de Dezembro de 2013, foi eleito secretário do PD, obtendo 2 milhões de votos nas primárias. Mas o PD também não é a Itália e nem este ganhou as eleições com margem suficiente para governar sozinho o país.
Depois da era Berlusconi, imprevisível e raramente envolvido nas grandes reuniões do Conselho, veio a era Monti, o professor capaz de dar umas aulas a uma Angela Merkel atenta. Em seguida, os membros do Conselho Europeu estavam já habituados ao jovem Enrico Letta, que construiu a sua cultura política no altar da Europa. Foi uma ilusão acreditar que um homem como Renzi iria esperar pela sua vez, permanecendo pacientemente na sombra .
Matteo Renzi escolheu o golpe interno
Todos os que na Europa são tidos como belas almas não deixarão de se pasmar em face deste jovem com pressa e decidido a fazer -finalmente! -as famosas “reformas estruturais”, que o país precisa urgentemente. Certo, Renzi ainda é somente o prefeito de Florença, que tem tudo para agradar aos media, aos mercados e aos dirigentes europeus. A sua reputação, cuidadosamente alimentada, de “Tony Blair italiano” confere-lhe um importante capital de simpatia nos salões políticos.
Matteo Renzi soube, é verdade, ser capaz de fazer com que o marketing político atingisse o nível de arte da guerra. Mas apoiando-se precisamente sobre a sua popularidade de actor de cinema, tinha-se o direito de esperar dele que se pretendesse chegar ao poder através duma aprovação popular do seu programa de reformas. Em vez disso, todos nós tivemos uma simples revolução palaciana que fará de Matteo Renzi o terceiro presidente consecutivo do Conselho que não foi escolhido pelos eleitores da Península. Nenhuma dúvida que todo o seu reinado será a partir de agora marcado pelo selo deste nascimento.
Em conclusão, não há nenhuma necessidade de ser eleito democraticamente para agradar a Bruxelas. A Europa supranacional congratula-se com os governos nacionais não-democráticos, desde que estejam na sua linha de acção.
A Europa tem medo do povo e do seu voto e prefere um não-eleito “déspota” do que um homem verdadeiramente escolhido pelo povo.

